Um móvel híbrido que atende aos prazeres de momentos individuais ou coletivos. Essa é a proposta do Rio Casa Anti-stress, criado pelo trio carioca Patrícia Davies, Tiago Bouças e Rafael Roldão, e único projeto brasileiro selecionado para o Salão Satélite da Feira de Milão 2007, que aconteceu em abril. A idéia é a de um ambiente para a interação social e entretenimento, além de um local que promova experiências sensoriais de relaxamento.




Trata-se de um híbrido desmontável: um sofá que pode ser uma cama, ou várias cadeiras e uma mesa. O mobiliário que faz parte do projeto Rio Casa Anti-stress foi inspirado no Rio de Janeiro, mais especificamente nos bares cariocas, sempre convidativos para reuniões de amigos e horas de descontração. A observação das alterações pelas quais os centros urbanos passam atualmente – já que hoje se busca o bem-estar dentro de casa, considerando-se a correria da vida cotidiana e os problemas sociais – também foi fundamental para o desenvolvimento do conceito idealizado pelos amigos Patrícia Davies, Tiago Bouças e Rafael Roldão. Através disso, eles desenvolveram uma instalação que sugere repouso e contemplação.

A influência teórica vem do italiano Ezio Manzini (professor de design industrial do Instituto Politécnico de Milão) e a exploração dos chamados bolsões de relaxamento. “Caminhamos para a domesticação do mundo, com controladores de ar, temperatura, umidade, comida pronta, entre outras coisas. Só que o caminho desse controle por algum motivo está indo para uma direção contrária ao que é humano. Operar esses controles exige muito conhecimento, que comumente é exigido de uma forma cruel e, na maior parte das vezes, estressante. Conceitualmente nossa idéia é trazer coisas que são boas de lugares ricos como o Rio, e transformá-las em móveis, produtos e espaços. Resumidamente, a tecnologia toma uma posição coadjuvante na cena. Ela é o apoio, a sustentação do principal que é o conforto e as experiências do ser humano”, diz Rafael Roldão.



A teoria se uniu a pratica: a exploração de situações agradáveis como alimento criativo para a invenção de produtos de design. “Assim surgiu o sofá, do modelo de uma mesa de bar. Sozinho ou com mais uma pessoa, é uma grande mesa confortável. Com mais amigos, torna-se uma mesa de centro na qual todos compartilham um espaço reduzido, que sempre é suficiente. Essa metamorfose foi um tema muito inspirador. Acreditamos que essa apropriação e reinterpretação é um caminho para o design contemporâneo”, completa. A peça foi pensada para amplos espaços e faz parte de um projeto maior, uma instalação composta de chão, paredes e projetor, além do sofá. Esse conjunto é o que foi apresentado em Milão.

O chão, macio e texturizado, pretende remeter ao andar na areia da praia; as paredes, além de protegerem, são macias; a imagem e o som projetados em uma tela 180º transportam as pessoas para cenários cariocas; o sofá pode ser dividido em seis partes ou cinco bancos e uma mesa de centro. A intenção é que o conjunto provoque sensações que façam as pessoas relaxarem. “A maior importância em ter participado da Feira de Milão, no meu ponto de vista, é a oportunidade de falar. O projeto é um dialogo sobre temas contemporâneos e uma coisa que desejo é poder dar minha opinião, acrescentar, conversar, desenhar soluções atuais para bancos, praças, chaleiras, sofás, carpetes, aviões, chaveiros, etc. Esse processo de discussão, de conversa sobre o cotidiano, me fascina. Vejo a Feira como um canal com o mundo, para abrir um diálogo a partir de experiências brasileiras”, completa Rafael.

O Salão Satélite da Feira Internacional do Móvel de Milão, a mais importante do mundo nesse segmento, é responsável pela apresentação de novos e inventivos designers todos os anos. Mais de 30 países mostram o que de melhor produzem na área. “Existe um ditado que diz que design é 1% inspiração e 99% transpiração, e ele está certíssimo. O projeto, o tema, os desafios são empolgantes e estamos realmente muito energizados com as possibilidades. De fato, para tudo isso acontecer houve um esforço conjunto grande, organizado, que utiliza todo o investimento que já fizemos em aprimoramento profissional, línguas, softwares, projeto, compreensão do design, método e muito mais”, completa Rafael.

Além do teórico Ezio Manzini, o trio cita artistas como Ernesto Neto, Hélio Oiticica e Lígia Clark como referência, evidenciando as características humanas e de integração como premissas para um projeto, além dos arquitetos Zaha Hadid e Paulo Mendes da Rocha. O protótipo apresentado na Itália foi desenvolvido na oficina da UniverCidade, no Rio de Janeiro e, para comercialização, será possível obter apenas o sofá ou todo o projeto integrado.