03/07: Do virtual para o real
Category: Literatura
Posted by: Melissa Medroni

Capa da edição nº 1
O Cracatoa Simplesmente Sumiu, um dos mais comentados endereços virtuais de origem paranaense, comemora dois anos no ar com o lançamento de um periódico de literatura. Trata-se do Todoprosa, um jornal de narrativas literárias que pode ser baixado no formato PDF e livremente copiado. O interessado pode imprimi-lo, distribuí-lo como suplemento ou afixá-lo em locais públicos, como faculdades e escolas. Em entrevista para O Plano B, o idealizador do Cracatoa e do Todoprosa, o jornalista Alessandro Martins, fala mais sobre o assunto.
Como surgiu a idéia do Todoprosa?
Surgiu da necessidade de conjugar meus trabalhos no Cracatoa Simplesmente Sumiu e em um jornal local curitibano (Jornal do Estado). Eu o ofereci ao jornal como um suplemento em parceria com o site. A idéia foi comprada e, no momento, o departamento comercial tem procurado a melhor maneira de concretizar o projeto como um encarte periódico. Enquanto isso, preferi lançá-lo como um jornal de livre cópia - claro que com a concordância de todos os seus colaboradores - para não ter que esperar a resposta de um mercado um tanto reticente e lento quando a questão é cultura e novos projetos.
Como é possível obter um exemplar?
Você pode baixar o PDF do Todoprosa (disponível aqui), imprimir quantas cópias quiser, distribuir, colar no mural de seu colégio, no poste da esquina de sua casa ou, ainda melhor, publicá-lo em seu jornal como suplemento. É claro que essa última hipótese ou qualquer outra que envolva comercialização do Todoprosa precisa ser negociada com o Cracatoa Simplesmente Sumiu.
Qual vai ser a sua periodicidade?
Por enquanto ele será mensal. Mas nada impede que, no futuro, ele se torne semanal. Por que não diário? Uma das vantagens do Todoprosa é que ele foi criado para ser impresso. Mas não precisa ser impresso por mim. Nem quero que seja. Isso o torna possível na parte da produção que me diz respeito. É, claro, isso demanda tempo, conhecimento, contatos e outros fatores que têm um custo prático alto. Mas o Cracatoa dispõe deles em certa quantidade. Assim, se em algum momento houver necessidade e investimento para que ele seja feito todo dia, por exemplo, poderá ser assim.
Tem muita gente que acredita que os jornais impressos estão em via de extinção. O que você acha?
Acho que isso pode acontecer. Não conheço muitas pessoas de quinze anos que lêem jornais impressos. Considere que a leitura de jornais - impressos - é um daqueles hábitos que se adquirem até os 20 anos. Em mais 20 anos, pouca gente vai lê-los. Logo, há grandes chances de que, de fato, eles deixem de existir. Não estou dizendo que um jornal impresso é melhor ou pior do que um telejornal ou um jornal via internet. É apenas um fato.
O Todoprosa é um jornal do Cracatoa Simplesmente Sumiu. Fale um pouco sobre a história do site.
O nome Cracatoa Simplesmente Sumiu surgiu em 1993 quando eu criei um blog num desses serviços gratuitos que há na internet. Queria um nome marcante e que ao mesmo tempo tivesse a ver comigo. Lembro que quando era criança assistia à série Cosmos, de Carl Sagan, com meu pai na tevê. Era uma série sobre Ciência, principalmente Astronomia e Biologia. Tudo aquilo era fascinante para uma criança de oito, nove anos. Um dos assuntos que mais me espantou, no entanto, foi a explosão da ilha de Krakatoa, na Indonésia, em 1883. O vulcão que nela havia foi pelos ares, levando consigo a pequena ilha, além de mais de 30 mil pessoas em conseqüência de terremotos, tsunamis e outras tragédias afins. A ilha, portanto, desapareceu completamente.

Reprodução da home page do Cracatoa
E como você resgatou esta história?
Recentemente revi todos os 13 episódios da série e descobri que nenhum deles fala sobre Krakatoa. Deve ter sido em outro programa, mas a memória afetiva me fez misturar as coisas. Enfim. Independentemente desse erro, gostei do nome Cracatoa - aportuguesado. Todo mundo já ouviu falar nele, muito embora muitas vezes não se saiba exatamente do que se trata. E o Simplesmente Sumiu fica por conta da sonoridade - Cracatoa Simplesmente Sumiu é um decassílabo -, pelo fato de que seria uma boa manchete caso algum jornal da época tivesse noticiado o assunto e pela curiosidade. Todo mundo se pergunta: "Cracatoa simplesmente sumiu? Como assim? Quem era? Simplesmente Sumiu? Pra onde?".
Há quanto tempo o Cracatoa está no ar?
Depois de um tempo, resolvi desativar o blog. Passei a escrever uma coluna no site do Paulo Polzonoff Jr a que dei o mesmo nome. A coluna me incentivava a disciplina e a regularidade por ser semanal e por pedir textos de um fôlego um pouco maior. Coisa que no blog não acontecia. Depois, convidei a fotógrafa Alicia Ayala para participar fazendo imagens para essa coluna. Já tínhamos trabalhado juntos em outras ocasiões e em outras áreas e vimos que a coisa tinha potencial. Assim, no final de 2004, ela incentivou-me a comprar o domínio e fizemos juntos, ao lado da produtora Karla Juliane e do webdesigner português Pedro Cunha, o site propriamente dito. Em dezembro, o Cracatoa Simplesmente Sumiu completa dois anos.
Com que periodicidade o site é atualizado?
Não existe uma periodicidade propriamente dita. Ele é atualizado quase que diariamente. Os colunistas têm dias da semana regulares para publicar. Assim, se você entrar hoje quase que certamente encontrará alguma coisa nova. Isso incentiva os acessos. Algumas colunas - principalmente as que demandam mais produção - são menos regulares, mas as que dependem apenas de texto obedecem a uma agenda e somos rigorosos quanto a isso. O visitante não gosta de entrar em um site e ver que absolutamente tudo está exatamente como ele deixou há 24 horas.
Qual é o objetivo do Cracatoa?
Prefiro dizer que em essência não há objetivo. Se há basicamente Literatura e Fotografia no site, perguntar isso seria o mesmo que perguntar qual o objetivo da Literatura e da Fotografia. E estaríamos em maus lençóis porque há muito tempo as pessoas vêm perguntando esse tipo de coisa. Qual o objetivo da arte afinal? Precisa mesmo ter um? Mas basicamente ele, o site, serve de meio para que textos e imagens principalmente narrativos cheguem até pessoas que deles gostem e se identifiquem com ele.
No release sobre o Cracatoa você diz: “... não fazemos questão de nos adaptarmos a um mercado ou a um perfil de produto. Se for para termos um público ele virá até nós do jeito que nós somos ou do jeito que nós nos tornarmos”. Você nunca pensou em comercializar o conteúdo do site?
Claro que pensei. Mas isso não é uma necessidade absoluta. Não pretendo me dedicar a isso. Vendas não me interessam como realização pessoal, mas tenho certeza de que interessam a muitas pessoas talentosas nessa área. Porém, nenhuma delas ainda viu o Cracatoa dessa maneira e a equipe acredita que o melhor é ter conosco pessoas que em algum momento tenham se entusiasmado com o trabalho. Por enquanto, nenhuma pessoa interessada em comerciar nosso trabalho quis se juntar a nós. Isso, no entanto, não é uma preocupação. O site se mantém bem como está, crescendo de uma maneira metabolizável e constante, por enquanto sem a necessidade de anunciantes e afins.
Na página inicial há uma enquete que pergunta ao internauta se ele assinaria um jornal com conteúdo Cracatoa. Existem planos nesse sentido? O Todoprosa é um começo?
O Todoprosa é um começo. Antes de ser um começo, porém, é uma possibilidade. Pode evoluir para isso ou não. Mas como pode se ver, na idéia do Todoprosa, não é necessário o conceito de assinatura. Você o recebe em seu computador de graça. Imprime, distribui, pendura em um mural. Como está, ele se basta. Se vai passar para outro estágio, depende de como as coisas andarem.
Vocês arcam com todos os custos para a manutenção da página e produção dos ensaios fotográficos ou têm algum tipo de apoio?
O preço de nosso tempo, conhecimento, produção, manutenção da página, hospedagem é todo pago por nós.

Imagem de divulgação do Cracatoa
E como é o público leitor do Cracatoa?
Temos um público fiel. As cerca de mil visitas diárias - que crescem dia a dia - não refletem isso, mas acredito em um público fiel de pelo menos cinco mil pessoas. Mas isso é apenas uma estimativa.
Qual é a repercussão do site em outras cidades, fora de Curitiba?
A repercussão em outras cidades é tão boa quanto a que temos em Curitiba. Um site não tem fronteiras. Assim, muitas pessoas que nos acessam nem sabem de onde somos exatamente. Isso não interessa hoje em dia. Não faz tanta diferença. De fato, não posso dizer que o site é de Curitiba. Afinal, ele é feito em Portugal, por Pedro Cunha, que sequer veio ao Brasil. Ou é feito em São Paulo, onde estão os colunistas Mariana Maltoni e Alexandre Inagaki. Ou é feito em Porto Alegre, onde mora o Fabrício Carpinejar. Ou no Rio, onde estão Carlos Heitor Barros e Daniela Lima.
Ou seja, não existem delimitações geográficas...
É, a cidade onde é feito um site é irrelevante e isso diz muito a respeito de como encarar a cultura hoje em dia. Eu não sei nem em que cidade fica o servidor que hospeda o Cracatoa, mas posso dizer a URL da empresa. Não se sabe em que cidade é feito um site. Acho que é por isso que temos leitores em todas as regiões do País e em outros continentes também. Não digo isso como vantagem, pois creio que o único limite para um site seja a sua língua. O fato de o nome do site ser o de um lugar que não existe, Cracatoa, é bastante significativo nesse caso.
O Cracatoa já promoveu algumas iniciativas fora do universo online, como exposições e um curta-metragem. Existe a preocupação do site interagir com outras manifestações artísticas?
Sim, sempre. Desde que elas se apresentem naturalmente. Tanto a participação em um evento de performances na Casa Hoffmann como o curta-metragem tiveram início em pessoas de outras áreas que se entusiasmaram com o nosso trabalho. O caminho inverso também é válido.
Que outras iniciativas de jornalistas e escritores na Internet você destacaria?
Entro pelo menos semanalmente em cada um dos sites que se encontram na página de links do Cracatoa e isso inclui o site do meu amigo Paulo Polzonoff Jr. e o próprio O Plano B. Fora isso, meus passeios na internet não têm nada de mais sistemático.
Serviço
Cracatoa Simplesmente Sumiu
Todoprosa
Paulo Polzonoff Jr
