Folhetim Urbano: os integrantes

O Torto foi o local escolhido para um bate-papo com os integrantes da banda Folhetim Urbano às 19 horas de uma segunda-feira em Curitiba. Com o recém-lançado Cativeiro, a Folhetim Urbano é exemplo de que ainda é possível fazer música, gravar um cd e tentar fazer shows. Podem ser poucos shows, mas sempre tem uma leva de amigos e parceiros que acompanham os refrões. Carlão Zubek (guitarra e voz), Renato Zubek (baixo e voz) e Marcelo (bateria) montaram a banda em 2003 porque acreditam que têm algo a dizer e que a melhor maneira de botar isso em prática é através da música. Nessa sexta, 01 de dezembro, a banda toca no Porão do Rock (ver serviço abaixo).



A música, por sinal, também é o plano b dos rapazes, que ralam em empregos “normais” durante o dia. O bate-papo teve a companhia do fiel amigo e poeta Flávio Jacobsen, que assim define a FU: “é uma simples alusão aos folhetins urbanos que narram toda essa visão e a violência do mundo, como a Tribuna Popular ou o Notícias Populares de São Paulo. É a retórica desses jornais, desses folhetins urbanos”. Cativeiro, o disco lançado em show memorável no Sesi Portão, que contou com a participação dos músicos Paulinho Branco, Linari (da inigualável paulista La Carne), Rodrigo Genaro (Gruvox) e Ivan Santos (Oaeoz), traz cinco faixas inspiradas – Guerrilha, ‘F’ de todos nós, Avon, Fases Frases e Tempestades e Sabadá –, que falam sobre a realidade de pessoas como eu, eles ou vocês. Leia abaixo a entrevista com a banda.

Vocês lançaram o cd Cativeiro recentemente. E agora?
Agora a gente está na correria de fazer shows, mas como os bares em Curitiba estão acabando, a gente está vendo se consegue marcar fora, em São Paulo ou em Joinville, estamos fazendo contatos. Se a gente não fizer alguma coisa agora que o cd acabou de ser lançado, ele acaba morrendo.


Zoroastro Avon: o avô

O lançamento foi na quinta do Sesi, né?
É um programa que eles tem lá, toda quinta colocam banda aqui de Curitiba e tal. Só que agora tá mais pra coral do que pra banda, então já perdemos mais um espaço. Depois do lançamento a gente não fez mais nenhum show, a gente trocou de batera e agora estamos ensaiando. Queremos marcar show para voltar a ativa de novo.

Há quanto tempo a banda existe?
A Folhetim Urbano é o antigo Sabadá, que tem uns quatro anos. Acho que em 2003 a gente começou a gravação. E ano passado resolvemos mudar o nome porque Sabadá já era o nome de uma banda de axé.

O que representa a Folhetim Urbano?
Folhetim Urbano é a visão do caos, a visão de cada um, do excluído...



Em algum momento vocês já viveram como essas pessoas das quais vocês falam?
Cara, a gente vê esse lado, entende? A gente viaja olhando tudo isso. Com certeza a gente vê um cara ali catando papel e do lado a mulher dele, e a gente vê uma poesia, ele ama aquela mulher, entende? A gente não vive isso, mas a gente passa a sentir. A Tribuna vai lá e descreve. A gente pelo menos tenta viver isso. Tento (Carlão, compositor) visualizar o que as pessoas passam e descrever. O Folhetim Urbano que é a descrição disso tudo, mas de um ponto de vista não comercial, nem do herói. É o ponto de vista do coadjuvante que passou batido.

O que te fez despertar para isso?
A minha realidade sempre foi a mais urbana, é o que tem em volta de mim. O que eu vivo é isso, então quando comecei a escrever, comecei a escrever sobre isso. Me coloco como o observador, é uma viagem. Ou não. Como falei lá no site: de repente não é a visão do excluído, é a visão de um cara trancado no quarto, no chão um monte de folha de papel, pensando em revolução e não fazendo nada. O ponto principal é a música, entende?

E você tá fazendo alguma coisa.
O interessante é viver nessa loucura, sem saber se você tá lá ou tá aqui. Se a gente está arquitetando uma revolução ou se a gente está realmente ajudando alguma coisa nesse quadro. Quando a gente se coloca na situação de alguém que está fora disso tudo, de uma condição legal, se é realmente aquilo que eles estão passando, a gente visualiza isso, mas a gente realmente nunca passou por isso.


Cativeiro: o lançamento

Quem é o público da Folhetim Urbano?
Acho que todo mundo que se identificar, a gente não faz um grupinho. É um público variado. A gente participou de um programa de rap porque quando os caras ouviram as letras, eles acharam que tinha tudo a ver. É um programa de rádio AM, na 1.270, o Comunidade Geral. É um programa muito bom, muito bem feito e a AM é uma rádio que funciona imediatamente. Você botava a música e as pessoas já respondiam, a coisa funciona. Na FM a coisa some, você não sabe para onde foi. Mas, enfim, é um programa de rap, os caras ficaram sabendo da gente, ficaram meio assim no começo, mas depois que escutaram as letras, viram o release, acharam que tinha tudo a ver com o rap. E acho que a banda é bem aberta, tem o lado rock and roll, o lado pop, mas não levantamos nenhuma bandeira, a gente não quer levantar um protesto.

Como aconteceu a participação do Linari e do Jorge Jordão, da banda paulista La Carne?
É que é praticamente uma confraria, a gente se reúne sempre com os amigos. Na verdade, a gente toca, mas não somos músicos, não fico 24 horas em cima da música. Não estudo a música como deveria estudar e não comando ela do jeito que queria comandar. E a reunião de amigos vem mais para concretizar isso daí. Porque todo mundo que tem banda sabe que a coisa se perde, chega uma hora que enche o saco, porque as coisas não começam a ficar melhor só porque você tá gravando. As coisas continuam no ritmo acelerado e quando você vê você ficou um mês, dois meses sem ir ao estúdio, sem conseguir ensaiar e a coisa vai perdendo o gás. Então essa reunião com os amigos foi para ativar a coisa toda, o Linari gravou uma voz, puta voz, por sinal, o Paulinho Branco no saxofone, e a coisa foi criando um interesse maior para a gente. E para ficar um trabalho que a gente terminou e que a gente escuta com o maior prazer. Então a gente chamou esses amigos todos porque são os caras que estão em volta da gente, e são um puta talento. Funciona realmente como uma reunião de amigos, ninguém recebeu nada pra isso, a não ser o Paulinho Branco, né? Uma confraria mesmo dos malucos. E o Linari e o Jorge representam muito pra gente, La Carne é nossa influência, é a mesma linguagem. A sonoridade da banda é crua, é aquilo ali que tem na letra e assim segue. E eles participarem foi um prazer, porque o Linari é o cara, o vocalista pra gente é o Linari. E o Jorge na guitarra, pô, a mão direita do cara na guitarra ninguém pega...

Flavio Jacobsen: acho que o Linari bate a mesma fotografia que o Carlão, só que de outro jeito, o Carlão vive em Curitiba o Linari em Osasco, então as fotografias vão ser outras, mas a idéia é a mesma.


Show de lançamento do álbum

O disco então é praticamente um segundo La Carne...
A presença deles dá um gás pra música Guerrilha, e o Jorge pra Fernandinho. A música cresce e cria-se uma visão diferente.

E o seu avô, o disco é dedicado pra ele, ele está na foto da capa...
O nome dele era Zoroastro Avon e ele foi piloto de Simca chambord. Quando a gente começou a gravar e ele ainda tava vivo, a gente mostrava as músicas para ele e ele xingava, dizia que não era música... Ele era um tipo de cara muito louco, era um cara que viveu o sonho dele. E ele criou uma desestrutura na família. E percebi que um pouco dessa minha visão era disso tudo que ele tinha criado.

Em que sentido?
De desestrutura familiar mesmo. Ele saiu fora e deixou a minha avó sozinha cuidando de nove filhas, então todo mundo é meio puto da cara com ele. É amor e ódio junto. A gente entende o lado do cara, porque tem o lado do sonho, de o cara acreditar em uma parada. E ele era tão verdadeiro naquilo, que até o final da vida dele, ele manteve aquele caráter louco. Então ele criou todo um problema, mas criou também outras coisas, uns pulos a mais. Ele foi piloto de Caxambo, era um puta de um piloto, morou em vários lugares, aprendeu várias línguas, só que morreu morando de favor, não ficou com nada. Então é uma coisa muito louca que a gente, que nessa onda o Folhetim Urbano meio que segue, nessa idéia de fazer o que gosta. Ele foi fundamental em tudo e foi uma homenagem pra ele. Mas fora isso não adianta ele ficar falando que ele comeu a Vera Fischer que ninguém vai acreditar...

E ele acompanhou o disco?
A gente mostrava e ele não gostava. Falava que não era música. Depois um dia ele escutou e disse: “pô, aquela música fala dos americanos, até que você tem um pouco de razão, mas você é um ignorante”. Hahaha. Ele tinha essa incoerência, e tinha um lado musical fudido.



Como as pessoas podem comprar o cd?
Tem mp3 no site e quem quiser comprar, custa 10 reais, pode entrar no site mesmo, www.folhetimurbano.com, lá tem o e-mail, manda um e-mail pra gente que a gente dá um jeito de entregar.

E quais são os planos para o próximo disco?
Esse cd demorou três anos para ser feito e a gente só gravou cinco músicas porque é só um cd de divulgação mesmo, e a grana pra gravar é difícil. Mas a banda hoje tem 20 músicas, tem muita música, tanto que nos shows a gente toca muito mais. E agora a intenção é gravar mais um disco, não esperar mais três anos pra gravar outro, gravar, mas dessa forma mais caseira.

Serviço:
Show dia 01 de dezembro, sexta-feira
Porão do Rock (Rua Carlos Cavalcanti, 1188, São Francisco)
A partir das 22 horas.
Entrada 8 reais.
Show com as bandas:
Charme Chulo
A VI Geração da Família Palim do Norte da Turquia (Maringá)
Folhetim Urbano
Celestines

www.folhetimurbano.com