imagens arquivo pessoal

Endrigo Bettega é baterista. Aconselha-se ouvir o que ele toca para entender melhor o que ele fala, mas dá para ter uma idéia do que é essa pessoa na entrevista que segue. Endrigo Bettega era um jogador de futebol, goleiro do Atlético Paranaense, que descobriu que não iria crescer o suficiente para se tornar o melhor goleiro que poderia ser. Optou por se dedicar à bateria, instrumento com o qual tinha afinidade, para se tornar um dos melhores bateristas do mundo. E conseguiu. Diz, sem ser minimamente esnobe, que está entre os dez melhores bateristas do mundo. Como que ele pode ter certeza? Simples: ele conhece os outros nove.



Depois de muito tempo se dividindo entre a Europa e o Brasil, ele resolveu morar definitivamente em Curitiba. É uma maneira fácil de se deslocar pelo sul e pelo sudeste do Brasil, onde toca com diversas bandas além de dar aulas, e também a possibilidade de ter definitivamente uma casa. O guitarrista de blues Nuno Mindelis, o trombonista Raul de Souza (com quem o baterista faz 20 shows em junho, pelo Brasil, e, em setembro, em Berlim), as bandas Natocaia e Dr. Cipó são apenas alguns nomes que ele acompanha. Em 2006, Endrigo lança um dvd aula, no qual ele ensina o método “diga não à tendinite”. Leia a entrevista que o baterista cedeu exclusivamente ao planob, no fim do mês de abril.

Qual a sua história?
Joguei futebol dos 12 aos 19 anos. Quando vim de Paranaguá para Curitiba, pelo Atlético Paranaense. Em 1989 parei de jogar pelo fato de que realmente fui fazer um teste para ver se eu iria passar de 1,82 ou 1,84 metros de altura, para continuar a carreira de goleiro, e o fato é que eu não ia passar de 1,80. Como eu tocava bateria esporadicamente, falei: ‘agora vou ser baterista’. E comecei a estudar 14 horas por dia. Uma média, não todo dia, mas durante três anos. Lembro que foi uma busca muito incessante, foi muita pressão. Foi como uma faculdade, fiz três faculdades em uma, porque acompanhava o que as faculdades estavam passando para os alunos e sempre estava à frente com relação ao estudo da bateria, aos rudimentos e aos instrumentos de percussão.

Você sempre foi tão determinado assim a ponto de querer ser o melhor no futebol e depois baterista, aos 19 anos?
Ah, sim, quando eu jogava futebol queria ser o melhor. A idéia era dar o melhor que pudesse naquela profissão. Quando fui estudar bateria, perguntei: ‘quem são os melhores do mundo?’. Fui atrás da metodologia desses bateristas, da história da música, buscar toda a informação a respeito de percussão e estudo dos rudimentos, a parte técnica. Tanto que consegui agora elaborar um método que é baseado no “diga não à tendinite”, porque nunca um aluno meu teve tendinite, e acho que isso acontece freqüentemente. As pessoas dizem que pararam ou vão parar de tocar porque tiveram tendinite e elas tiveram por um movimento repetitivo errado, feito por horas e horas estudando bateria. E cheguei a conclusão de que tinha uma maneira de tocar esse instrumento, ter anos e anos de trabalho e não necessariamente ter que parar por causa de um problema técnico.

Voltando aos melhores...
Então, falei: ‘quem são os melhores?’. São esses? Então eu devorei. Seis meses depois que comecei a estudar mesmo, já tava tocando música instrumental e, em 1991, fui para Suíça, tocar no Festival de Montreux, com o Grupo Sotak, com o Mauro Martins, o Paulo Branco, a Marilia Giller, o Mario Conde, e essa ida mudou totalmente a minha vida, tanto que fiquei morando lá, foram quase cinco anos lá...


Antuérpia, Bélgica


Quanto tempo entre começar a estudar muito e ser profissional?
De 1989 a 1991, acho. Em 1988 já tava tocando mais ou menos. Só que tinha o problema de que não podia tocar no fim de semana porque a gente jogava, e o técnico sabia quando eu tinha tocado à noite.

Então as coisas coincidiram?
Aconteceu no último ano, em 1988. Já tava tocando porque todo mundo falava: ‘Endrigo, você tem que fazer música’. Foram pessoas importantes que falaram e mudaram a história. E é inevitável a música. Lembro que com sete anos recebi meu primeiro cachê. Foi do meu padrinho para tocar em uma festa de aniversário, com garrafa de refrigerante, espetinho de bambu e todo ano tinha que tocar, fazer aquele som.

Já era um amador da bateria enquanto jogador de futebol...
Não tinha estudo, mas comecei a tocar tirando música, tinha toda uma história em Paranaguá com os meus amigos, de quando a gente se reuniu para juntar dinheiro porque a mãe de um deles vinha para Curitiba e ela levou para lá três instrumentos: uma caixa, um tarol e um par de pratos. Foi muito engraçado, foi o começo, acho que era 82, por aí. Não, foi antes, porque em 82 vim pra Curitiba. A gente estudava, eu ia e voltava pra Paranaguá, mas nessa ida e volta já tava começando esse processo. E o futebol foi bom porque como o goleiro trabalha perna e braço, para a minha coordenação como baterista teve tudo a ver. Deu estrutura de coordenação. E um dos meus pontos fortes quando jogava era o centro de colocação, o senso matemático, porque a matemática está ligada à música diretamente, principalmente a percussão, ao estudo da bateria. É matemática e quando você consegue conciliar a matemática com a emoção, é a perfeição. E sempre em busca da perfeição. Sou muito perfeccionista. Todos os trabalhos que tenho, todos os cds que gravei, já gravei uns 198 cds, hoje (26 de abril) fechei mais um, 199, lá em Blumenau. E estou indo amanhã para São Paulo, tocar lá com o Nuno Mindelis também e gravar o 200, que ele me convidou. Olhe só! Isso aconteceu hoje.


Holanda


O que você vai gravar com ele?
O Nuno me contratou para eu gravar grooves pra ele. A idéia é a seguinte: toco uma levada e ele vai usar isso depois para montar as músicas dele. Como vários estúdios usam aqui em Curitiba as minhas coisas, o Gramophone, o Underdoog, o Ricardinho, o grande Ricardinho lá, manda um abraço para ele, o James do Jamute Audio, o Vitor, no Solo Estúdio, o Paulo, do Click, são os estúdios que trabalho freqüentemente, o Nico e o Trilhas Urbanas também. São todos esses, se você quiser colocar todos esses nomes...

Conte de quando você foi morar na Suíça.
Então, já tava tocando. Não voltei para o clube mais, em dezembro de 1989 foi a final do campeonato paranaense, contra o Matsubara, no Pinheirão, no último dia lembro de eu voltando num ônibus amarelo, aquele ônibus... E aquilo mudou, porque lembro que começou o ano e comecei a estudar um monte. E todo mundo falava: ‘ah, vai ter festa, vai ter não sei o que lá’. E eu não ia, ficava estudando. Daí, olhava as pessoas tocando nos lugares, e falava: ‘bicho, tem alguma coisa errada’. E voltava e estudava, estudava, estudava. E me assustei com a velocidade, porque parecia que eu tava só relembrando. Porque seis meses depois eu tava muito rápido, olhava o reflexo na janela e tava muito rápido. Mas é que peguei tudo, entrei dentro da história e estudei os melhores do mundo.


Zurique


Quem eram os melhores do mundo?
Acho que são os mesmo ainda. O primeiro método que estudei foi Gene Krupa. É um método moderno até hoje, é de 1958 e moderno até hoje. Sempre uso em workshop porque lembro da abertura do Big Bang na minha mente quando entendi a matemática da música. Quando via a pirâmide das notas e como elas se subdividiam, era matemática clara, era a grande, depois virava duas, depois semínima, depois 8, 16, 32, 64. Esse cálculo já fechou. E depois, de tanto estudar, você começa a ter o supra ritmo, o estudo da polirritmia que é uma coisa que adaptei para a bateria, que é um estudo que é feito até na faculdade. As pessoas têm buscado isso nas aulas e nos workshops para entender o que faço, porque trabalho com metrônomo, com a matemática, só que trabalho com a polirritmia, então essa polirritmia pode ser acessada em qualquer lugar do mundo. É a mesma linguagem matemática e a mesma linguagem musical em todo o mundo. A idéia é a seguinte: é muito mais fácil se adaptar ao metrônomo universal do que o mundo inteiro ter que se adaptar ao seu pulso pessoal.

Voltando aos mestres...
Quando percebi isso no método de Gene Krupa, essa idéia da pirâmide, como abria na matemática, ele, o Buddy Rich, o Nenê, o Marcio Bahia que eu ouvia muito o baterista do Hermeto Pascoal, Dave Wechl, Vini Colaiuta, toda aquela bando do Chick Corea, que eu ouvia muito e amava muito também, Allan Holdsworth. Na época, eu ouvia também muita música clássica, que sempre foi um estudo que fiz, por ter vivido na Europa muito tempo, então pude ter acesso e gosto por isso também. Acho isso interessante porque as pessoas às vezes não gostam de um gênero musical porque nunca puderam ouvir. E como a gente toca em lugares do interior, às vezes você toca uma música instrumental e ela toca de maneira inacreditável as pessoas. É muito interessante. Elas ficam emocionadas e passam a gostar... Mas dentro daquele estudo dos melhores do mundo estava também o Billy Cobahm. Quando fui para a Europa, durante os cinco, sete anos que estive participando do Festival de Montreux, pude ver e ouvir bandas, artistas e grandes músicos que eu ouvia na época, pude ver e conhecer pessoalmente. Então isso me aproximou muito do top que sempre busquei. O top ten, que a gente fala. É estar entre os melhores do mundo, mas não por competição e sim por competência e capacidade.

Hoje você está entre eles?
Com certeza, por eu ter o discernimento de tocar e respeitar a essência de cada ritmo. Tocar ele dentro da sua essência respeitando a história do ritmo, o sotaque, e não só o ritmo como estilo musical. Isso é muito importante, porque se vou tocar blues, vou tocar blues mesmo. O Nuno curte, tanto que ele me chamou para gravar de novo agora, acho que estou fazendo realmente a linguagem do blues. Quando vou tocar baião, é baião. Salsa é salsa. Pude tocar e estudar com o Changuito, que tocou 25 anos no Los Van Van de Cuba. Na Suíça ele fez dez concertos e me adotou como sobrinho. Me passou a salsa mesmo, é o criador do Songo, é o grande professor dos cubanos. Pude conviver com ele porque ele tava com mil dólares, não podia levar o dinheiro pra Cuba e eu falava francês. Daí ele falou: ‘tenho mil dólares e quero aquele relógio e esse anel, que vou levar e compro uma casa em Cuba’. Fui lá, ele ficou eternamente grato e disse que iria me passar o segredo do Songo e da Salsa. Ele também me fez abrir essa idéia de tocar o jazz como jazz, como o americano toca...


França


Você diz isso por que os músicos geralmente misturam?
A interferência do ego: esse é o problema. O não-ego é um estudo infinito. Porque ao mesmo tempo em que se trabalha a personalidade, você tem que controlar a personalidade. Todo dia acordar e falar: ‘bicho: começou, zera tudo, olha pra frente’. Porque as pessoas se perdem mesmo com isso.

Com a vaidade.
Exatamente, elas desviam o foco do estudo. E na minha profissão, primeiro que é muito bom poder escolher o patrão, o contratante no caso, segundo é o fato de poder escolher o que fazer com música. Sempre digo que a minha profissão é uma faculdade paga, porque estou recebendo para dar continuidade ao meu estudo científico. Estou tocando lá no Festival de Montreux, no Festival de Milão, que toquei no Festival Latino em Milão, na França, no Caribe ou na África, que a gente saiu dois dias antes do Tsunami. A gente está dando continuidade a esse estudo, a essa ciência, estou recebendo para isso e podendo dar continuidade a essa evolução. Tenho certeza que estou fazendo parte da continuidade da evolução musical, e isso é importante pra mim.

Mas você está acima da média e diz de maneira muito tranqüila que está entre os dez melhores bateristas do mundo.
Ah, mas é porque conheço os outros. Quem conhece música sabe quem são os dez.

É algo surpreendente, até pelo fato de você ter dito que parecia que você estava relembrando.
De uma forma muito clara e assustadora, aliás. Não sabia como concentrar tanta informação, tanta coisa, tanta abertura. E eu era novo, realmente. Foi muito forte.


Alemanha


E qual a ligação entre a agressividade do futebol e a gentileza da música?
Mas a bateria é agressiva e gentil, porque a bateria tem que ser agressiva. E elas vieram juntas, intuitiva e naturalmente. Eu jogava futebol e, ao mesmo tempo, tinha acesso fácil ao ritmo, conseguia entender o que era a bateria, o baixo, a guitarra, porque é difícil para as pessoas entenderem. E, para mim, era muito claro. Tinha uma vizinha que colocava umas músicas, naquela época era a coletânea do Hollywood Rock, tinha Breaking all the Rules, Journey, The Police, U2, e eu ficava tirando as músicas e a vizinha lá na frente punha bem alto o som, e eu uhu, ela escutando e eu tocando junto. A nossa casa em Paranaguá era grande, tinha um escritório enorme e eu podia ficar lá, eles me trancavam lá. Até tenho que agradecer à minha família pela paciência. E realmente agradeço à minha família, aos meus irmãos e minhas irmãs. Foi até engraçado agora, depois que passou no Jô Soares, tava toda a família lá e minha mãe chegou e falou: ‘nossa, meu filho, me deu um orgulho de você!’. Achei tão boa essa relação com a música, porque a gente tem que dignificar a música. Acredito que as pessoas com o tempo vão ver a realidade, não tem como fugir da verdade. A música é uma arte em tempo real, e isso é muito legal em música. Esse trabalho em tempo real e o poder atômico da música, que é um estudo que faço também, que é o lado metafísico da música. Depois que percebi aquela grade lá – olha só, estou voltando no Gene Krupa –, vi o que estava intercalando. E quando percebi que existia um mundo inserido entre aquela matemática, alguma coisa que não era vista de primeira, por exemplo, entre o um e o 8 existia um sete que não aparecia, se tornou essa busca por esse leque infinito. A música indiana usa muito isso, o instrumento destemperado e o ritmo também destemperado.

O que é destemperado?
É a maneira de se calcular entre, as comas em relação aos tons e no ritmo, existe a coma rítmica também, com relação à parte rítmica. Hoje visualizo como se fosse uma grande tela do computador e sei que onde eu tocar o tempo, dentro daquele campo de visão, vou saber onde ele está, consegui perceber isso. Não só os pixels que tem naquela máquina 5.1, mas passar o 5.1 de pixels, e ter um acesso a esse campo invisível da música.

Que é onde o sentimento...
O sentimento, a alma e, para quem acredita ou não, que a gente pode vir fazendo um trabalho há muito tempo e que esse trabalho vai evoluindo. É um assunto delicado quando se fala em relação à música, mas sempre falo muito em Deus, faço muitas ligações com a natureza. Esse meu método de lubrificação das juntas para não ter tendinite é baseado no movimento dos animais, no movimento natural do corpo. E o futebol ajudou muito a perceber e ter estrutura de coordenação, porque o cérebro manda a informação, mas o corpo tem que estar apto e preparado em tempo real, muito rápido, para poder fazer. Cada vez fica mais veloz.


Com Dr. Cipó, em Curitiba


Como foi a evolução musical durante os anos que você passou na Europa?
Ah, sim, assim como pessoa também aprendi muito. É muito bom você aprender e tentar falar uma outra língua, porque é outro mecanismo que você vai usar e isso vai ser interessante porque vai ajudar a sempre tocar uma outra música. E quando não estou tocando estou estudando, lendo, leio muito, busco inspiração para a música, as pessoas às vezes nem entendem isso. Esses dias eu tava na livraria, daí chegou um cara que me chamou: ‘Endrigo!’. Bem alto, um escândalo, até o vendedor ficou sem jeito. Daí ele falou: ‘você veio comprar cd?’. Falei: ‘não, vim comprar um livro’. Daí ele: ‘Mas como?’.

Você conhecia ele?
Sim, tinha dado uma aula pra ele... quando era jogador ainda, acho que ele foi o meu primeiro aluno! Tenho que agradecer a ele, mas esqueci o nome dele. Mas ele tava exaltado, fazia tempo que a gente não se via. Daí, me despedi e fui comprar o livro. Tô lá olhando, quando chego na parte de esotéricos, escuto uma voz atrás de mim: ‘então é isso que você procura?’. Era o cara, hahaha.... era o cara! E uma família do lado ficou aterrorizada. Daí ele falou que o pai dele começou estudando muito isso, os esotéricos, e depois acabou virando católico! Mas a idéia não é essa. É que busco inspiração na leitura porque ela força a criação, força visualizar do nada uma situação. E isso é interessante, é como criar um filme que não existe. Essa relação de imagem com a música, sempre tive isso. Também essa relação de respeitar o público é uma coisa muito forte pra mim. Às vezes você tem que tocar o que as pessoas querem ouvir, porque existe um sentimento coletivo, existem padrões de sentimento coletivo que você define na música.

E...
Ah, outra coisa, na época que eu estudava, tomava muito mel e guaraná. De manhã tomava guaraná e durante o dia inteiro eu comia mel. Só não fiquei diabético porque deve ter feito bem para saúde... para agüentar o tranco. Porque era o dia inteiro!

Mas ninguém mandou você estudar o tempo todo, você fez porque quis.
Sim, mas é que era o seguinte: percebi que tinha que correr atrás só para passar por cima daquilo que já sabia. Porque tinha que chegar na crista da onda e ainda estava remando para entrar na onda, na analogia com o surfe. Agora estou na frente na onda.

É um caso atípico.
O Hermeto (Pascoal) fala uma coisa sempre. Estudo e sempre estudei muito a vida inteira, então a minha música é apenas resultado de muito estudo. E existe também, acho, um talento, um dom, que é uma coisa que não é palpável, que é um dom divino. Lembro que a primeira vez que assinei num hotel a minha profissão como músico, isso mudou a minha vida também. Porque antes eu não colocava. Existe um preconceito ridículo de que não se pode viver bem com música. E eu conheci o mundo, esse ano marquei outra turnê, em setembro estamos indo para a Alemanha, pra França, todo ano vou duas, três vezes pra Europa e para outros lugares do mundo. Tudo com a música. Porque estudei muito. E é importante você buscar um diferencial. Não importa como você chega lá, licitamente, honestamente. Isso é importante porque nunca esqueci o dia que o meu pai falou: ‘seja honesto’. Porque honestidade e respeito é a base de tudo, o respeito pela música, pelo teu público, ao teu trabalho e a você também. Porque, por outro lado, você escuta muito das pessoas, elas têm medo de que a tua música suma. Porque ela é fundamental na trilha sonora da vida daquelas pessoas. E essa é a minha idéia: fazer parte da trilha sonora da vida das pessoas, com essa linguagem que todo mundo entende.


Grupo Sotak e Hermeto Pascoal


Quando você é convidado para tocar nos festivais internacionais, você vai com uma banda específica?
Não. Trabalho para vários artistas, tanto que desses cds que gravei poucos foram repetidos. A minha criatividade está ligada diretamente com estar tocando sempre algo diferente. Eu via um cara que dirigia um bonde, na Suíça, e ele vai ficar durante 40 anos dirigindo aquele bondinho ou aquele trem, no mesmo caminho. E tenho a felicidade de poder trilhar por várias linhas de trem. Infinitas. É um infinito número de linhas de trem, infinitos caminhos da música, caminhos rítmicos, melódicos e harmônicos. Isso encaixa sempre, o lance da sua vida e da música. E existe também o fato da inteligência, é importante para fazer o seu trabalho. Existe um estudo que diz que o músico trabalha uma região do cérebro que normalmente as pessoas em outras profissões não usam. Vi uma pesquisa sobre isso, não lembro onde, mas com certeza me marcou. Os caras fizeram um estudo com um músico e é uma região diferente. E falei: ‘bicho, ali pode ser uma ‘antena’ que está ligada ao dom, com tudo que a gente fala, o talento’. E você precisa disso porque para conceber a arte tem que pensar diferente, tem que ter caminhos que não foram trilhados pelas outras pessoas. Quem vai assistir um show, quer algo inusitado para mudar a vida.

Pra você é fácil ser inovador tocando bateria?
Fácil não é, porque é muito estudo em seqüência. O resultado desse estudo de polirritmia vem de toda uma seqüência de pequenas descobertas, que vão se juntar num aglomerado e disso sai, no final do funil, aquela concepção. Que hoje a gente diz que o que conta é a concepção do artista. Não só o que conta, mas o que se pode trazer para o mercado. Você pode fazer a mesma levada antiga, mas colocar alguma coisinha diferente tentando mudar o mundo. Porque não é fácil quando você pega esse mercado. É difícil ouvir uma rádio hoje no Brasil, só o cara que trabalha num lugar e deixa o radinho ligado lá. Mas o que tenho notado, viajando por aí, é que o sentimento básico do ser humano é o mesmo. Isso parece óbvio, mas digo, existe a diferença da língua e da maneira como as pessoas vivem, mas a essência geral, a idéia do amor de família é o mesmo, e o senso da música é o mesmo. A maneira como você toca as pessoas, é um passaporte impressionante. E outra coisa que você consegue perceber quando tá na frente da crista da onda é que tem um mercado infinitamente grande ainda a ser explorado.

Mas você acha que isso acontece com você porque o teu trabalho é mais segmentado?
O fato de eu poder tocar onde quero e com quem quero faz com que eu também dê continuidade a essa concepção de trabalho com qualidade que estou fazendo. Não é que não tenham trabalhos de qualidade, mas estou buscando construir a pirâmide com uma base sólida. Então não adianta eu ir lá, fazer um trabalho e não ter estrutura, porque quando eu aparecer lá em cima da pirâmide, não tem como voltar.

O que seria o lá em cima?
Pra mim, é como sempre estive, sempre tive feliz, sempre tive tudo, nunca me faltou nada. Sempre tive amor em abundância e amizades. Sempre disse, cara, prestem atenção, tenham amigos, amigos mesmo, isso é uma coisa muito difícil de ter, amigos do coração, de alma, e ser amigo de todo mundo, do teu pai, da tua mãe, da tua família, porque isso é uma coisa que fica. Casa você compra, apartamento, avião, barco, carro, instrumento, só que a amizade é uma coisa muito especial. Acho que as pessoas têm que prestar mais atenção nisso e serem menos imediatistas. Aprendi muito com a vida. Quando eu errava, falava: ‘bicho, lembre’. Voltei a errar na mesma coisa e falei: ‘calma, pelo menos tô lembrando, tô consciente, até uma hora que vai dar certo’. Pelo menos se liga nisso, não fica passando por cima, sabe? E a minha vida sempre foi boa, não tenho do que reclamar. Posso ir onde quero, viajo muito, até chega a ser um problema isso, cansa muito viajar. Agora vou ficar no Brasil, vou morar no Brasil mesmo e só viajar. Eu vou, busco ‘dinheuro’ e volto, hahaha. Vou levar a música do Brasil lá para fora, mas quero conhecer ainda mais o Brasil que é muito grande e quero conhecer também a América do Sul, porque é um celeiro rítmico muito grande. A Europa oferece a parte melódica e harmônica da música muito boa, mas a parte rítmica tá pra cá, tá nas Américas.

Paga-se melhor músico lá fora ou aqui?
Acho que os mesmos 100 euros que você ganha lá equivalem aos mesmos 100 reais daqui, quando você entra no supermercado. E é sempre a mesma coisa.

Quando você começou a trabalhar com Nuno Mindelis?
Começou há uns três anos, ele me convidou para tocar e eu toquei. Falei: ‘o que você quer que eu faça?’. Ele: ‘isso’. Eu fiz e ele ficou abismado. Ele falou: ‘como você consegue?’. Falei: ‘ué, estou fazendo o que você quer’. Estou passando por cima do ego. Por isso que digo sobre o problema do ego. Às vezes as pessoas falam: ‘ah, por que você não tá lá com o Jota Quest ou com a Madonna?’. Bicho, a minha música é muito especial e sei onde estou trabalhando. Estou querendo ajudar a estruturar e a profissionalizar muitas áreas que são amadoras na música no Brasil. Meu trabalho é de base, estou ajudando a abrir o olho de muita gente. É um trabalho altruísta, o meu trabalho é altruísta. Porque depois que você entrou no caminho, o caminho vai e você não pode parar. As pessoas esperam cada vez mais de você. Sempre friso para as pessoas chegarem e olharem no olho de quem está ali vendo um show, sabe, que bom que você gosta da nossa música, porque é para você mesmo que estou fazendo. É para a tua alma ficar feliz. É uma cura. E como meu pai é médico, sempre usei a idéia da música como cura.

Você sempre pensou assim?
Já fui menos, lá na Europa já fui menos, porque tava cheio de estudo, de idéias, então quando tudo funciona você quer impor. Mas depois com a experiência, fiz 36 anos agora, estou pegando o supra-sumo da minha música, estou arrumando ela. Para organizar a qualidade e direcionar os momentos de grandeza da música. De chegar e falar assim: ‘isso é genial, isso é genial’. E já sacar. Com o tempo você vai vendo que realmente há espaço para o cantor ou o solista, por exemplo, o Proveta, o Carlos Malta, o Raul de Souza, que a gente faz turnê direto...

Mas você já quis aparecer mais que todos?
Lógico, mas quem disser não está mentindo. Isso que digo, o ego, ele infla e vai lá em cima. Porque a gente precisa que digam ‘você é bom’. De certa maneira esse ego te ajuda a ir pra frente, ele te joga e acho isso bom. Tem vários tipos de humildade e vários tipos de ego. Mas é saber controlar o ego, na hora da humildade ser humilde, mas na hora de ser ríspido, fazer as pessoas compreenderem o por que da parte do arranjo, o por que de tocar daquela maneira, você usa também. Certo? Então são várias maneiras. O que digo é que no geral tem que controlar o ego para que se possa lidar com os vários tipos diferentes de pessoas e músicos que você vai trabalhar. E digo que hoje estudo sociologia. Porque consigo falar seis línguas e isso facilita o trabalho. Entender o que o cara quer que você toque, o que ele não quer que você toque, que geralmente é mais importante, isso facilita muito. E digo que é um trabalho de sociologia que a gente faz, muito grande.

Você ensaia?
Depende. Tem coisas que você tem que ensaiar porque sempre falo: são músicas especiais para pessoas especiais. A experiência faz com que você entenda mais rápido. Prefiro leitura, facilmente com leitura de partitura gravo um cd de 12 ou 13 músicas em um dia, você sabe o ritmo e tal e começa a entender a escrita dos arranjadores. Mas têm trabalhos que tenho que ouvir.

Quem você acompanha hoje em dia?
O Nuno Mindelis, o Raul de Souza, o Dr. Cipó, o grupo Natocaia, tem um projeto do Astor Piazzolla que está fortíssimo, toda quinta-feira em Florianópolis, isso é demais. São músicas do Piazzolla interpretadas, cai a casa. Depois vou para a Europa em setembro, tocar com o Raul de Souza, música instrumental, mais brasileira, vamos tocar em vários países. Por isso que agora parei no Brasil, em Curitiba. Porque Curitiba está estrategicamente entre o mercado do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e o mercado de São Paulo, que tenho tocado bastante, e no Rio. Curitiba fica bem no meio da passagem, vendo de cima. Essa idéia de ver de cima é bacana, você olha de cima e vê o seu pontinho se deslocando, sempre usei isso.

Você se diverte, Endrigo?
Muito, fico impressionado. Impressionado. Às vezes até é demais. Tudo dá certo, mas é que tem que ser muito competente pra isso. Só que abri mão de um bom tempo da minha vida pra poder estar colhendo isso e juro que eu sabia. Lembra quando falei pra você que eu queria ser o melhor do mundo? Eu sabia que tinha um tesouro lá na frente. E que um dia eu iria poder fazer o que eu quisesse. Fui muito disciplinado. E mesmo hoje em dia estudo o dia inteiro.

Não tem nada a ver com o músico-boêmio?
Não, não toco mais à noite, só faço grandes shows. Consegui isso, consegui fugir do barzinho de cenzão. Tem que escrever isso. Isso é ridículo. Conseguimos agora aumentar o cachê num bar para 150, uma vitória, hoje recebi a notícia que eles vão pagar 150 para cada músico. Sou o responsável por essa busca por respeito, tem que ser 150 no mínimo, já é um passo.

E é pouco.
É pouco, o cara tem que vir, trazer equipamento. Daí volta pra casa, depois volta pro bar, nessa aí já gastou 30 de gasolina. Por isso que agora também só faço ensaio pago. Teve uma época que falavam que eu não gostava de ensaiar, mas não é que não goste de ensaiar. Porque vou lá ensaiar, só para chegar com o meu carro você nem imagina quanto gasto de IPVA. Agora é só ensaio pago, e está ajudando várias pessoas que estão fazendo isso também. É essa a estrutura também de base da profissão. Tem o estudo técnico, o pessoal, o espiritual, a busca pelo perfeccionismo, a cobrança e a pressão, que é incessante e diária. As pessoas sempre querem te testar, é impressionante como aparece. Mas agora quero ficar no Brasil, estou com 36 anos e quando chegar nos 40 quero estar como imaginei mesmo. Porque a minha casa é o mundo, é continua sendo.

Conte do dvd aula que você está fazendo.
Esse ano vou fazer o meu dvd aula, isso é legal. E aí que está. Penso assim, tem que ser um trabalho sério que não coloque em risco a integridade física e a integridade moral, e que seja educativo, por isso só estou fazendo agora. Esse dvd é um método de ensino baseado nessa história de não tendinite.

Você tem tendinite?
Não tenho e olhe que toco horas, toco muito. A idéia é abrir uma escola no futuro para ser um consultório, porque sinto isso. Quando vou dar aula em Santa Catarina, são oito aulas no mesmo dia. Começa de manhã, um aluno entra, deu 50 minutos vem outro. Um entra atrás do outro, é um real o minuto. É um consultório, é impressionante. Qual é o teu problema? O meu problema é de ritmo. Sim, vamos lá. Entra outro. Qual o teu problema? Vai, vamos lá... Juro, uma hora pensei que era despacho, um consultório, eu só falava: ‘próximo’. Vários alunos me pagam para fazer perguntas, só para conversar. Quer ir para a Europa, quer conselhos. O problema é que às vezes são alunos que estão cursando a faculdade. E sei que os pais querem que ele termine. E tenho que fazer a função de fazer ele terminar a faculdade e conciliar a música. Porque se ele deixar a faculdade, os pais não vão entender e vão direcionar o problema para o professor da música que tirou ele daquilo, e não é isso. Se ele pode terminar, vou aconselhar que termine. Deixe a família feliz, porque as pessoas têm que estar bem em volta. Você não pode ser egoísta, aprendi muito isso também. Me importo muito com o bem-estar do outro, isso às vezes é até um problema, como já foi, de eu ser mal interpretado. Mas me importo muito com o bem-estar das pessoas e é isso que tento passar pros alunos. E não vá passar por cima de ninguém, porque ninguém precisa disso. Têm infinitas linhas de trem que você pode trilhar.

Contatos: www.endrigobettega.com e endrigobettega@hotmail.com