25/03: Híbrida
Category: Cotidiano
Posted by: Melissa Crocetti

Ela desenha o mundo que vê, assim como a maioria dos artistas. E ela vê a paisagem urbana, as cores e as formas da cidade, no caso, Curitiba. E a cidade dela é híbrida, o trabalho dela é híbrido e o gosto dela também. Daniela Baumguertner é uma artista, simplesmente. Faz parte daquele grupo de pessoas que começa a ser feliz depois das seis, quando larga o trabalho-sobrevida e consegue fazer as coisas que gosta, mas que na maioria das vezes não traz benefícios financeiros. “Nem vivo de arte, faço porque é compulsivo em mim”.

Formada pela Belas Artes, Daniela se assumiu artista em 1999. Desde a infância sabia que seria artista plástica e sempre teve uma queda especial pelo trabalho com colagem. Quando foi estudar, descobriu a gravura e daí para a ligação com digital foi um pulo. “A gravura é uma matriz com muitas cópias e coisa e tal, então chegou uma hora que abandonei tudo e falei: foda-se, viva o digital”.

Hoje o que ela mais faz é street art. Desenha, manipula, xeroca e cola pelas ruas. Mas existe o código de ética que impede de colar seus trabalhos em lugares habitados. Depois registra essas intervenções. “Minha referência é o urbano, é o que está mais presente. Eu só trouxe a cena urbana para o street. Transportei de um meio para outro, porque isso acontece desde 1995, tenho vários desenhos de prédio e gosto da referência daqui. Alguém me perguntou se eram paisagens verdadeiras, e a maior parte é, tem imagem inventada também, mas a maior parte é verdadeira”.

Daniela ficaria muito feliz se fosse chamada para fazer uma intervenção, um painel em um prédio, por exemplo. Uma obra gigantesca num contexto artístico. “Isso seria legal. Porque quem optou pela ‘colinha’, faz isso de madrugada. Com o tempo, adaptei para poder fazer de dia, diminui o tamanho e não uso mais a cola de farinha. Chegou um momento que tava ficando complicado ficar de madrugada colando, era um empenho, dorme um pouco, acorda e daí no outro dia acordar cedo e ir trabalhar. Sabe umas coisas assim?”.

E é um tipo de arte efêmera, que deteriora com o tempo e com as pessoas. Então, por que fazer isso? “Porque as pessoas não vão ao museu, porque a minha obra não está no museu. E você atinge uma massa maior, é um público diferente. E quem vai ao museu, vai com um olhar crítico e as pessoas que estão na rua não. Acho que em algum momento aquilo vai tocá-las”.

Desses anos com a arte, Daniela vê como maior amadurecimento o fato de se assumir. “Acho que você se assumir é a melhor coisa. Quando você tem um trabalho que acha que está uma bosta, joga no lixo sem dor. E eu demorei para fazer isso. Porque quando você pensa em ser artista, você quer ser um Basquiat, você quer ser um Andy Warhol, você quer que as pessoas te conheçam, você quer que de alguma forma aquilo volte. E depois, com o tempo, você acaba se desapegando. Faço porque é vital. Mas não encano mais, não tenho que mandar para salão, não tenho que fazer uma exposição. A internet é legal para isso. Claro que eu gostaria de expor e fazer sucesso, não quero ser sempre marginal, apesar de que é legal ser marginal. Mas um zerinho a mais na minha conta só iria ajudar...”.

Daniela Baumguertner por Estefano Lessa
Para ver mais, acesse http://danibaum.multiply.com

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