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Cozinha é o nome do trabalho mais recente da artista plástica Mariella Macedo, resultado do amadurecimento da artista em relação às artes visuais e reflexo das experiências que ela teve durante os cinco anos em que morou em Olinda, no Recife, e também dos outros três em que ela se encontrou como artista, já de volta a Curitiba. Por compatibilidades ela foi e por outras tantas ela voltou, e aí também cabe como motivo a paixão e o casamento com um dos mais talentosos artistas paranaenses, o Foca Cruz. A vivacidade da artista, as experimentações, a indignação com a passividade alheia, os amigos pernambucanos do grupo Moluscos Lama, a Casa Coisa (uma sátira à Casa Cor), entre outras histórias, você lê na entrevista.


Qual é a sua história com as artes plásticas?
Eu pinto há muito tempo. Desde pequena sempre curti, gostei, mas nada muito além disso. Um tio meu um dia me deu um bloco de Canson, acho que eu tinha nove anos, e lápis, carvão, giz pastel e comecei a pirar um pouco mais e a levar para um outro caminho. Mas sempre desse jeito muito solto. Depois, um pouco antes de eu entrar na faculdade, voltei a pintar em um ateliê de uma gaúcha muito bacana e ela me instigou muito. Ela disse que eu tinha não só jeito, porque jeito todo mundo pode ter, mas ela disse que eu viajava, digamos assim, que a minha pintura era sincera. E sempre que alguém te fala uma coisa você acredita, né? E comecei a pintar mais e a fazer outras coisas, mas sempre dentro da pintura com tinta, pastel, etc.

Uma coisa tradicional.
É, mas nesse tempo eu já me interessava, só que de uma maneira bem sutil, por alguma coisa ligada à colagem. Só que passou muito tempo, fiz Publicidade e na faculdade comecei a trabalhar com produção. Produção de cinema, não produção de set, mas trabalhei bastante com o Festival de Cinema e com o Mercado Mundo Mix, que era outra coisa, mas virei produtora. Quando me formei, queria de qualquer maneira sair um pouco daqui, então fui pra Recife, morei em Olinda, porque tava numa fase super Chico Science, e pirei que era Recife mesmo o lugar e que eu tinha que ir.



Mas foi pra lá trabalhando com artes?
Trabalhando com produção. Um pouco antes da minha ida pra lá fiz um amigo pernambucano, quando ainda trabalhava no Festival de Cinema. Alguns meses depois, comprei a minha passagem, liguei pra ele e disse que eu tava indo. Acabei ficando hospedada na produtora dele e fiz muitos amigos lá.

Quanto tempo você ficou lá?
Dessa primeira vez acho que fiquei uns 25 dias. Só que conheci uma galera, parece que eu encontrei a galera da minha vida que eu nunca encontrei em lugar nenhum. Fiz amigos muito rápido, já fiz uma história. Aí voltei pra cá, acabei voltando no Carnaval e resolvi que iria morar lá. No começo trabalhei com produção porque precisava me sustentar, trabalhei com o pessoal que faz o Festival de Cinema. Era o que me bancava. Só que, ao mesmo tempo, Olinda me resgatou tudo que... Eu nunca deixei de pintar, só que era uma coisa muito do lado ali, e Olinda começou a me despertar uma outra coisa. Lá é muito louco, tem muito artista em Olinda. E me identifiquei muito com as pessoas que conheci lá, comecei a ver o outro lado da arte, porque todos eram artistas como eu nunca tinha conhecido, nem visto em lugar nenhum, nem em filme, nem nada. Eu achei que eles eram muito explosivos na maneira deles.

Mas onde está essa diferença entre o pessoal daqui e o de lá?
Eu não sei, mas está em uma loucura, no bom sentido, muito diferente da nossa. Conheci uma turma que diz, literalmente, foda-se para o mundo inteiro. Quando cheguei lá, um desses meus amigos, numa das primeiras vezes que sai à noite, ele falou: ‘vamos nos pintar’. Foi meio doido, porque não entendi direito qual era a pira e quando você está num outro lugar, e lá é muito diferente do Sul, você não sabe direito como as pessoas se comportam. Daí ele falou isso e no mesmo momento começou a se pintar, passou tinta no corpo inteiro, mas como uma atitude muito natural. A gente se pintou também e saiu, pegou ônibus pintado. Quando a gente desceu do ônibus, no centro de Recife, comecei a me dar conta daquela situação, a gente seria uma aberração em qualquer lugar do mundo, foi uma viagem minha ali. Óbvio que tava todo mundo olhando e esse tipo de coisa é uma coisa meio maluca. O meu choque foi a revolução do que eu tinha visto pessoalmente de arte até então.

Até porque você vive numa cidade bem mais conservadora do que isso.
Totalmente. Curitiba é cada um dentro da sua casa. Um dia, cheguei na casa de uns amigos desse meu amigo em Olinda, porque Recife e Olinda são grudadinhas. Ele falou: ‘vamos na casa de uma galera que quero pegar a minha câmera que está lá’. A gente chegou em uma casa, por fora uma casa normal, com uma pintura meio fodidona, ele bateu: ‘tem alguém em casa?’. Ninguém atendeu. Ele pegou no trinco da porta, abriu e a porta tava aberta. A partir daí, pra mim, já começou uma coisa muito doida, a porta aberta e daí o amigo vai entrando... E ele: ‘ô, alguém em casa?’. Quando entrei na casa, e as casas são compridas em Olinda, a gente entrou pelo corredor, passou todos os quartos e chegou na sala. A parede era inteira pintada, desenhada, com colagens... Era muito louco e tinham todos os tipos de encenações, tudo, tudo. Muito maluco. Eu fiquei bem estupefata. E fiquei mais de cara porque a gente continuou caminhando, daí parei na sala e a sala tinha uma tv legal, som, milhares de cds, um monte de coisas e aquela casa tava aberta, com tudo de uma galera, porque morava uma galera lá. E numa das paredes da casa, porque são casas grudadas, tinha uma janelinha com uma grade e apareceu uma pessoa ali. E falou: ‘oi Ricardo (o amigo), é tu? Acho que não tem ninguém em casa, né?’.

Uma janela aberta pra casa do vizinho?
É! Daí ele pediu para ele (o vizinho) avisar a galera da casa que ele pegou a câmera dele. Aquilo, pra mim... Quando conheci essa galera, sabe, e não conhecia uma vanguarda de verdade, acho que nunca tinha conhecido.



Você diz isso em relação do comportamento deles?
De comportamento e de arte. Porque, resumindo, todos são artistas. Umas duas trabalham como garçonete, outra trabalha com isso ou aquilo, e vão fazendo suas coisas dessa maneira. Acho que aqui eu não tinha conhecido o que vai vir a ser uma vanguarda contemporânea, digamos assim. Mesmo agora que voltei, que tenho contato com artistas contemporâneos meus daqui. Acho que, indiscutivelmente, ninguém pensa tão longe quanto essa galera que conheci. E isso foi há oito anos, quando cheguei lá. Eles conseguem chegar num ponto da arte que acho que é muito louco. Da pessoa realmente conseguir fazer uma coisa muito nonsense e muito legal. Porque é muito difícil. Acho que só as pessoas espontâneas conseguem mostrar isso.

Eles são um grupo de arte?
Hoje em dia eles já não usam mais o nome, porque cada um acabou caindo para um lado, mas eles se intitulavam, e os intitulavam, como Moluscos Lama. Depois de um tempo algumas dessas pessoas montaram outro ateliê que era o Submarino, e desenvolveram outros trabalhos. Eu já tinha visto muita instalação, só que a primeira instalação que quando eu entrei, eu pirei, quando realmente me deu vontade de entrar por outras portas na arte, foi uma instalação deles. Eles ganharam um espaço dentro de um salão de arte contemporânea de Pernambuco, acho que há uns cinco ou seis anos, e como eles já tinham se separado eles fizeram uma instalação chamada A Morte dos Moluscos Lama. Era uma salinha inteira de grama, com uma tumba enorme escrita ‘Molusco Lama’. Muitas prateleiras com velas e uma prateleira com presunto, salame, mortadela, mortadela, muita mortadela, e pão. E foi a primeira vez que acho que entendi a arte, a arte contemporânea mesmo. O que é você entrar em um lugar e, independente da razão de aquilo existir, independente do conceito, porque hoje em dia as pessoas são muito intelectuais, fazem um conceito maravilhoso e você não entende patavina. Às vezes não precisa entender para ser legal. Quando entrei naquele espaço e vi aquilo, eu pirei. Pirei. E acho que são algumas coisas assim que me despertaram.

Até então você só tava trabalhando com produção lá?
Eu pintava lá, nunca deixei de pintar, mas não era muito. Porque lá também eu era muito dura, só teve uma vez que tive dinheiro pra ir numa loja comprar tinta. Porque tinta é caro e na época eu usava muita tinta nas minhas pinturas, então não rolava. Tinha um estojo de giz pastel e blocos de canson e comecei a pintar bastante e fiz várias mulheres. Até expus no Korova (hoje Eletric Café) logo que cheguei aqui.

Faz quanto tempo que você voltou?
Morei cinco anos lá e vão fazer três anos que voltei. Parece que foi ontem, mas já faz tempo. Quando eu pintei as Mulheres, percebi que tinha mudado um pouco. Sempre curti colocar cor, mas coloquei enlouquecidamente cor nas Mulheres. Daí percebo uma ligação Olinda. Foi a minha sacada naquela época, são mulheres um pouco mais bonitas, mais sensíveis e tem cor.



Por que você voltou, Mariella?
Sou muito apegada à minha família, era difícil ficar lá muito tempo e levar a minha vida a sério lá, porque eu vinha muito pra cá. E nessas vindas acabava passando um mês aqui e não rola. E daí conheci o Foca, me apaixonei, foi um monte de coisas. E nessa época que voltei, eu quis expor.

Foi a primeira exposição?
Individual foi. E comecei a perceber que eu queria viver disso, comecei a desgostar da produção, comecei a ficar estressada por trabalhar com tanta gente estrela, sabe, que nada era bom, nada dava certo, e decidi que eu não queria mais aquilo. E comecei a buscar ‘o que eu quero’. Quando voltei, aconteceu essa série de coisas juntas e comecei a ver que, naquele momento, eu poderia ter mais ajuda aqui. Era muito difícil lá também, agora me lembrei disso, eu morava em Olinda, trabalhava em Piedade que é em Recife, depois de Boa Viagem, quase 40 quilômetros da minha casa, pegava um ônibus absurdo que era o único que tinha Olinda-Piedade, e levava quase duas horas para chegar no trabalho. Era muito desgastante. E no fim de semana eu queria ir pra praia, queria fazer tudo o que eu não fiz, né? Daí que comecei a entender um pouco sobre todos os artistas que não conseguiam se manter. Porque ou você entra num padrão do que vende, do que é comercial, ou você faz do teu jeito, independente de ser ou não ser, e tenta viver daquilo.



As Mulheres você pintou lá ou aqui?
Todas lá e expus aqui. Depois que voltei, passei por todo um processo e fui pintar. Conheci uma artista, a Claudia Guimarães, ela também é cineasta, é muito boa, tem trabalhos muito legais e tinha um ateliê. Conversei com ela e ela falou: ‘comece’. Quando comecei foi difícil, porque não sabia o que eu queria fazer, não queria mais fazer aquelas Mulheres, não queria mais nada daquilo. A minha pintura era solta, ela não tinha muito detalhe. Eu não conseguia desenhar detalhes porque achava que não tinha muita paciência para ficar ali no quadro. E a Claudia me desafiou, disse que era para eu tentar se eu gostava tanto daquilo. E pirei naquilo que comecei a fazer, trouxe muita influência de muitas coisas. Estou falando de uma tela específica que fiquei muito tempo trabalhando. Quando pintei uma parte inteira do quadro, sobrou uma parte em branco e então vi a mudança de estilo, de técnica e de tudo. E fiz uma colagem. Durante esse tempo, estudei bastante, fiz vários cursos, faço até hoje o curso permanente de História da Arte com o Fernando Bini. E ele é incrível. Lá eu descobri o que eu queria. Pirei muito. Fiz muitos cursos de desenho, porque quando vejo o desenho do Foca aqui em casa, penso: ‘tenho que estudar desenho’. E nessa época conheci alguns artistas que trabalham com luz e neon e enlouqueci. Porque tenho a minha pira com linguagem visual, piro na cor das embalagens e acho isso lindo.

Quando vi a exposição Cozinha, fiquei pensando que dava para saber tudo o que você consome por ali.
É o que eu consumo, com poucas exceções, mas é o que consumo. É o que está dentro de casa. E também o bacana da exposição Cozinha é que é quase cem por cento reciclada. O meu único custo foi uma parte de iluminação. Mas voltando a esse quadro que eu tava te falando...

Ele representa uma mudança forte no seu trabalho?
Total. Comecei a ver tanta coisa, pirei na coisa de arte sem barreira. Voltando aos artistas que usavam neon, tem um deles que é o Dan Flavin e ele faz coisas enlouquecedoras. Tem um trabalho dele que vi e achei muito louco, faz a gente pensar em outra coisas. Foi em alguma galeria, ele fez uma projeção em um canto de uma galeria, não lembro se eram luzes de neon ou não, mas eram coloridas e formavam na parede uma coisa muito linda. Muito linda. E aquilo não “existe”, porque só existe enquanto está refletido: apagou a luz, sumiu. E resolvi começar a fazer alguma coisa ligada à luz. Nessa mesma época conheci um outro artista que fala da dimensão do espaço, o italiano Lucio Fontana, e ele cortou as telas dele e abriu uma outra dimensão. Daí queimei um pedaço da minha tela com um maçarico pequeno, fiz o furo e, por trás, coloquei uma luz negra.

Uma coisa que achei bacana da exposição Cozinha é que você mudou o clima de um ambiente completamente com o seu trabalho.
Tudo mudou, né? E é isso. E tem outra coisa que é também é legal, o por que aconteceu a Cozinha mesmo. Quando houve a separação do Moluscos Lama, algumas pessoas abriram esse ateliê chamado Submarino. E começou a Casa Cor de Recife, não me lembro em que ano, e algumas semanas depois eles pegaram essa casa que eles tinham alugado, que era o ateliê, e montaram a Casa Coisa, uma sátira à Cara Cor. E foi uma das coisas mais loucas que já vi na minha vida, mais loucas, mais inacreditáveis, mais bacanas. Por que todo mundo não pensa assim? É muito divertido ir a algum lugar e ter uma surpresa, ver alguma coisa realmente legal. E a Casa Coisa era uma casa absolutamente trash. Eles usaram o que tinham na mão, botaram um sofá fodido, era totalmente realidade, todos os lugares foram muito doidos. E há muito tempo acho que para chamar a minha atenção tem que ter alguma coisa diferente de tudo o que eu já vi. Não é por obrigação, mas é uma coisa de fazer as coisas do seu jeito, porque com certeza o teu jeito é diferente do jeito de qualquer pessoa. Não existe um padrão. Quando você começa a ver muita coisa igual, você pensa: tem alguma coisa errada, porque ninguém é igual.

E você encontrou em Curitiba um espaço semelhante para desenvolver esse pensamento?
Não. Porque conheci tudo lá no Recife sabendo o básico da arte. Quando comecei a conhecer a arte contemporânea mundial, incrivelmente, as pessoas que realmente me surpreenderam são os grandes nomes, com uma exceção ou outra. Eu conhecia uma coisa ou outra do Duchamp, por exemplo, mas não sabia da vida dele, não sabia tanto do Dadaísmo, de onde vinha a doideira toda. Quando comecei a estudar, foi incrível, porque os Moluscos não têm noção do que eles são. E talvez não estejam preparados para ouvir alguém dizer, até porque se eu falar, vão pensar que é alguém da mesma turma, não sou nem mais velha, nem mais experiente do que nenhum deles. Mas é muito louco, é o mesmo nível de arte, é aquilo que consegue vir espontaneamente da pessoa. Isso eu vi em todos eles claramente.



Para eles a arte é absolutamente normal?
Exatamente. Existem artistas que têm a pretensão de fazer alguma coisa e que fazem coisas maravilhosas, mas você pode apostar que, mesmo com pretensão, pra eles isso é natural. É sempre pensar que, se você vai fazer alguma coisa para mostrar para alguém, que ela seja do jeito que você faria se fosse deixar fechado dentro do ateliê. Essa é a diferença da maioria dos artistas, que acho que pensam muito no lado comercial.

Mas você consegue se manter financeiramente?
Não, atualmente de jeito nenhum. E fico pensando assim. Quando expus a Cozinha, lá no Korova, levei muito a sério. Mandei e-mail para os jornais que eu tinha o contato, mandei para o Caderno G da Gazeta do Povo. Só o programa Enfoque, da TV Educativa, e não sei como eles ficaram sabendo porque eu não tinha avisado, foi me entrevistar no dia que eu estava montando a exposição. Para a Gazeta do Povo, mandei o convite, depois mandei as informações novamente explicando bem o serviço do Korova e da exposição, e nada. Nunca colocaram nem no Roteiro.

Não dá para saber se há algum critério ali.
No mesmo mês que expus, tava rolando no mínimo cinco outros espaços de bares com exposição, e algumas que estavam sempre no jornal.

E a sua nunca saiu.
De jeito nenhum. Falei pro Foca e ele falou: ‘artista mandando o próprio trabalho pra esse pessoal de jornal, desvaloriza, eles acham isso ou aquilo’. Daí pedi pro Cláudio (proprietário do extinto Korova) mandar um e-mail para a Gazeta, ele me respondeu dizendo que o cara da Gazeta tinha ligado, confirmou os horários e tal. E não saiu. Você chegou a ver o nosso manifesto?

Não, que manifesto?
Chua Dum Dum. Eu, a Pavão (Fernanda Pavão) e a Paulinha (Paula Villa Nova) fizemos um manifesto esculhambando tudo e todo mundo, inclusive aquele Salão de Artes Paranaense que foi ridículo. Tem três textos, um da Pavão, um da Paulinha e um meu, nos quais a gente esculhamba tudo e todo mundo. Um dia antes de começar o Salão de Artes Paranaense, em dezembro do ano passado, a gente colou o manifesto pela cidade inteira (O Manifesto Chua Dum Dum contesta os critérios de seleção dos artistas que participaram do Salão, entre outras coisas).



Vocês fizeram um tumulto?
Não sei dizer até que ponto foi um tumulto, a gente não tem noção da dimensão que teve. Sei que alguns artistas que a gente não conhece muito bem, mas conhece um ou outro, souberam. Mas não sei de fato a repercussão. Ah, a gente colocou uma cópia do Manifesto na porta da Belas Artes, ficou quase dois meses lá, então muita gente deve ter lido. Mas não vi ninguém esculhambar. Porque hoje é complicado... Só para você ter idéia, um dos cursos de desenho que fiz foi com a Lívia Piantavini, ela é tudo de bom, ela é uma graça de pessoa. Um dia, tava conversando com ela, a gente tava falando disso, e ela tava contando que teve uma exposição para a qual ela e mais alguns artistas foram convidados para fazer, para um Museu daqui. Todos executaram o trabalho para a exposição, daí a exposição foi adiada três vezes e, na quarta vez, cancelaram. Eu fiquei de cara. Falei pra ela: ‘que revoltante, mas o que vocês fizeram?’. Ela me disse que eles não fizeram nada. Falei: ‘vocês têm que meter a boca, contar pra todo mundo, pra queimar a cara do próprio museu, porque isso não se faz’. Daí ela me respondeu assim: ‘pois é, mas é que a gente vira e mexe tá trabalhando com eles’. Isso, pra mim, é inconcebível.

Passividade.
Rabo preso. Não existe uma relação assim. E fiquei surpresa porque achei que ela era mais velha do que eu e tal, mas na época que ela me falou isso ela tinha 25 anos...

Era para ainda estar quebrando tudo, né?
Tudo! Tudo bem que depois o artista fique até um pouco mais pacato, com preguiça de fazer alguma coisa, talvez. Mas isso continua na alma, mas tão cedo assim eu acho muito...

Você encontrou na Pavão e na Paulinha essa sintonia?
Sim, são as duas únicas pessoas que encontrei e a gente conseguiu entrar em um acordo de transgredir. A gente transgride pelo mesmo caminho, digamos assim. Não tenho muito esse preconceito com a cidade porque em Olinda também conheci muita gente babaca, mas aqui é meio curitibinha, curitiboca. Eu e a Pavão começamos a ir sempre em abertura de exposição, e conheci algumas pessoas mais ou menos da minha faixa etária, que trabalham com isso e, a princípio, achei as pessoas muito legais, tive uma certa afinidade. Depois de um tempo, tempo que eu digo de um mês, dois meses, cruzei com essas pessoas e elas levantaram a sobrancelha...

Mas por causa dos cartazes?
Não, eram até pessoas que acharam legal a história dos cartazes. Mas convidei para irem na minha exposição e não foram, sei lá... Aqui em Curitiba, sinceramente, têm algumas galerias com alguns galeristas que trabalham realmente para vender o artista que está lá dentro. Mas se for depender de visitação... A minha intenção é mostrar uma coisa bem pessoal, minha, quero que as pessoas vejam o meu trabalho de verdade.



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