02/09: Humanos
Category: Fotografia
Posted by: Melissa Crocetti

Lixão de Cidade Nova, Natal, Rio Grande do Norte. Local onde homens dignos se misturam aos restos – nem sempre dignos – de outros homens. Lugar onde a exclusão social evidencia-se entre latas, plásticos e entulhos não-recicláveis. O Lixão de Cidade Nova foi o tema escolhido pelo fotógrafo paraibano Numo Rama para destruir a barreira entre o pensar e o fazer fotografia. Humanos, como ele chama o resultado do trabalho, conta a história daquelas pessoas que vivem à margem, entre cacos, em um pedaço do norte do Brasil. Trata-se de uma reflexão sobre a condição humana, que não pretende vitimar ou enaltecer determinado segmento da sociedade, apenas documentar ‘estragos e perdas causados pelo egoísmo do homem’, nas palavras do fotógrafo.

Como você chegou até a história das pessoas que trabalham no lixão de Cidade Nova?
Fazia sete anos que eu estava pensando a fotografia e este pensar me consumia muito. Sentia extrema necessidade de romper com tudo e desenvolver, a partir do que já conhecia, uma fotografia pessoal, escolher o tema e estar convicto da ideologia que iria envolvê-lo. Foi sobre milhares de toneladas de lixo que encontrei o tema certo. Ali entendi o potencial do egoísmo da humanidade da minha época e o lado heróico de suas vítimas. Não faz sentido um ser humano viver em tais circunstâncias. Mesmo assim, ao retirar materiais recicláveis daquele lugar, esse ser humano diminui o impacto ambiental causado por aqueles que geraram esse quadro social lamentável. Por outro lado, vemos o quanto o ser humano é resistente e vai ao limite de suas possibilidades para fazer sobreviver a vida.

Como foi a receptividade das pessoas com o seu interesse em fotografá-las?
Indiferença por parte de alguns e resistência por outros. Claro que eles estavam certos. Eu, desconhecido no meio, estava literalmente invadindo um ambiente de trabalho. As primeiras imagens só foram possíveis depois de três dias. Durante um mês e meio, cinco dias por semana e quase oito horas por dia deu para fazer um trabalho significativo. Esses brasileiros se apresentavam diante da câmera como verdadeiros monumentos humanos, anônimos, que venciam e vencem a morte diariamente. Se analisarmos dentro dos moldes da razão, encontraremos uma radiografia crua da humanidade de nossa época. A negação da espécie pela própria espécie.
O que você acha que causa mais impacto neste trabalho?
A fotografia é uma linguagem ambígua. As reações das pessoas são diversas. Creio que muitos sentem, inconscientemente, um certo estado de impotência porque o assunto fotografado encara sua própria realidade com heroísmo, embora eles entendam isto como uma derrota social. O heroísmo consiste em não atentar contra a própria vida. Em vez de se matar, eles vão buscar energia no limite.
Como foi a reação das pessoas fotografadas?
Com as imagens deles próprios ouve muita festa, mas com o material editado não foi assim. Ouve um certo silêncio, alguns ficaram pensativo, outros comentavam a dureza da vida. Um jovem disse que eu havia fotografado a alma do lixão e isto me impressionou muito. Pois o que me interessava ali não era fazer um ensaio convencional, mas registrar graficamente a carga psicológica do ambiente. Quando ele afirmou isto ouve uma reação unânime. Todos estavam de acordo com suas palavras. Aquele jovem entendeu a mensagem que eu havia preparado para um público que está muito acima de sua camada social. Ele veio do interior e mal sabia escrever o nome.

Teve alguém que acabou se tornando mais próximo de você?
Encontrei um rapaz chamado Francisco de Assis, 32 anos. Não conhecia outra forma de vida, a não ser trabalhar como catador. Um filho do lixão. Assis foi o ponto de apoio que encontrei ali dentro. Ele tem um profundo orgulho do que faz. Todos os seus quatro filhos estudam. Quando abri a exposição em Natal, convidei alguns intelectuais para falarem sobre a condição do homem em nossa sociedade. Assis fechou as discussões com simplicidade e um carisma nato. Grande parte do evento girou em torno dele.
O seu trabalho está no site Zonezero a convite do fotógrafo mexicano Pedro Meyer. Como foi o contato com o Meyer e quais as observações dele em relação ao seu trabalho?
Já conhecia o trabalho do Pedro Meyer desde os anos duros fora do Brasil. Pedro “reinventou” o documentário na era digital. Sua visão sobre uma determinada imagem pode atingir varias demissões. Eu o vejo mais como alfabetizador da fotografia. Mas os puristas sofrem com suas leituras. Quando sentei em sua mesa, já era o final da última rodada de leitura de portfólio do FotoArte (de 2004). Eu, apesar de gostar da subjetividade, sempre gostei dos ensaios clássicos. O Pedro começou a folhear as imagens numa rapidez incrível. Pensei: ‘logo o Pedro, de quem tanto admiro o trabalho, não gostou do meu’. De repente ele pára e diz: “This is a great body of work”. Ele me perguntou se podia fazer uma nova edição. Em menos de cinco minutos havia reeditado tudo. Então disse: “Quero essa edição o mais rápido possível no ZoneZero”. O Pedro Meyer não se mostrou senhor dos conhecimentos. Ele viajou intensamente no meu trabalho e demonstrou isto. Esse foi o Pedro Meyer que conheci.

Você é autodidata?
Sou sim. Sempre quis mais dos fotógrafos. Só suas imagens não bastavam e não bastam, pois ainda sou um aprendiz. Ao ver uma fotografia que gosto, me posiciono exatamente no lugar do fotógrafo. Refaço a cena, crio outras situações e assim vai. Alvarez Bravo, Koudelka, Larry Tawell, Bresson, Eugene Smith, Robert Frank, Wayne Bishop me ajudaram a entender muita coisa. Creio que a turbulência de minha vida e a esperança nata de brasileiro foram os ingredientes fundamentais. O resto a gente vai aprendendo e moldando.
Do que trata o projeto “Carnívoros”?
Carnívoros é um trabalho autobiográfico. Dos 13 aos 16 anos eu e meu pai matávamos gado. É um ensaio é pesado. Na época eu não pensava da mesma forma. Simplesmente montava, ia ao campo, escolhia a rês e abatia. Simples, não era? Hoje vejo a matança de outra forma. Quando você vai comer um bife não pensa no animal que foi morto e esquartejado. O sabor é tudo. Carnívoros te convida a reflexão, é um golpe violento no eu cruel do homem.
E “Ana Cristina”?
Ana Cristina é uma poesia dura. Ela tem 16 anos e é tetraplégica. Mora numa casa de taipo com pai senil e um irmão cego na fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba. A mãe, dona Dada, e mais cinco irmãos compõem o quadro familiar. Busco com esse ensaio levar o heroísmo e o amor dessa família de brasileiros pobres aos que negam atenção ao ente vitimado por algum tipo de problema físico ou mental. Ana Cristina nos ensina de todas as forma.
Você sobrevive da fotografia? Ouvi dizer que você tem uma empresa de turismo.
Sim, é verdade. É uma pequena empresa com a qual faço turismo ideológico para escandinavos, durante cinco meses do ano. É uma extensão da fotografia. Mostro para os meus clientes o Brasil que acredito. Entrou no jipe vai ter que repensar o conceito de terceiro mundo. Minhas excursões não são de lazer. Tem que suar e pensar. Não consigo comprar o pão com o dinheiro da fotografia. Então resolvi devolvê-lo para as comunidades carentes através de obras sociais. Temos projetos em andamento por aqui, que já estão tomando forma. E com o turismo ideológico posso fotografar sem me preocupar muito se vai ou não vender. Quando saio com minhas câmeras saio para exercitar a vida e levar para casa, impresso no negativo, a síntese dessa experiência. Vida é isto: aprender, pensar e passar.
Numo Rama começou a se interessar por fotografia em 1994, três anos depois de ter ido morar em Portugal. Autodidata, começou a estudar alguns autores portugueses e suas influências. Logo conheceu a obra de mestres como Manuel Álvarez Bravo, do México, Cartier-Bresson e do tcheko Koudelka e se tornou o fotógrafo que é hoje. Durante o evento FotoArte 2004, que aconteceu em Brasília, Rama apresentou seu trabalho a Pedro Meyer, fotógrafo mexicano que disse “que os fotógrafos devem investir em histórias que valham a pena”, na época. Talvez por pensar assim, Meyer convidou Numo Rama para fazer parte do site www.zonezero.com, uma revista on-line que desde 1995 é referência mundial pela qualidade dos trabalhos que ali estão.

numo wrote:
suas perguntas tem mais sentidos que as respostas.
abraço Melissa
conte sempre comigo
Creio que tua revista vai longe viu.
numo