Música, alma e insônia. A receita do novo trabalho do músico e compositor Igor Ribeiro. Igor é conhecido em Curitiba pela qualidade de sua música e pela simplicidade de sua pessoa. Rapaz jovem, 26 anos, cheio de referências – e “más” influências –, que lhe rendem trabalhos de uma deliciosa sonoridade, como o recém-lançado Insomnica.


Voz suave e poderosa, que faz esquecer a figura aparentemente frágil de Igor. De frágil, por sinal, ele não tem nada. O trabalho é fruto da persistência e da crença. Crença na música, com a inspiração de quem vive o dia-a-dia. Esse disco – que foi composto, gravado, mixado e produzido em casa entre 2003 e 2005 –, traz 15 faixas, algumas em parcerias com outros músicos, que soam como trilha sonora de um filme, como ele mesmo diz. Um disco para ouvir com fones de ouvido, “pra sacar umas texturas, uns timbres, as colagens entre as músicas, dinâmicas”. Tods, oaeoz, Iris, e ESS são as bandas das quais ele já fez ou ainda faz parte. Leia a seguir a entrevista que Igor Ribeiro cedeu por e-mail para o Plano B.

Você tem insônia?
Sim, mas já tive uma fase pior, quando era mais freqüente.

O que você faz quando tem insônia?
Leio, escuto um som, fumo, dou uma trabalhada no que eu estiver fazendo, mexo em alguma mixagem, assisto tevê ou simplesmente fico tentando dormir.

O que é o Insomnica?
Uma brincadeira com as palavras, insônia/sônica/som. Foi mais ou menos o que aconteceu fazendo esse disco, já que 70% dele foi feito de madrugada.


Igor Ribeiro em foto de Guto Gevaerd


Esse disco foi composto, gravado e produzido em casa. Por quê?
Gosto de produzir em casa pelo tempo, pela facilidade, pela liberdade de experimentar e deixar o trabalho do jeito que quero. Claro que há algumas limitações de equipamento, acústica, vizinhança. Mas de qualquer forma é um grande barato e gosto de ter controle sobre minha produção. É inevitável que a qualidade de um trabalho caseiro seja diferente de um trabalho num estúdio com um equipamento excelente. Tenho um equipamento simples, não tenho tudo que gostaria pra gravar e produzir e nem grana pra bancar uma gravação em um estúdio bacana, então vou fazendo do jeito que dá, me atualizando e estudando. Hoje com certeza eu gravaria esse disco com algumas técnicas de produção diferentes. Foi difícil botar um ponto final por isso, fui lapidando muita coisa, ouvindo trocentas vezes até conseguir um resultado satisfatório. Claro que poderia ter ficado melhor em muitos aspectos, mas deixei pro próximo, que já comecei a fazer, senão não acabaria nunca. Ainda regravo alguns temas desse disco com qualidade melhor e com uma banda. Acharia muito legal se outras bandas gravassem músicas minhas como fez o oaeoz com “Horizontes”, que é do meu primeiro trabalho caseiro, o “Iris – Solitude”. Me vejo mais como compositor do que instrumentista ou produtor.

O que te interessa em música?
Me interessa aprender mais. Me interessa o que ela causa, a maneira como ela move o ser humano. A quantidade de sentimentos diferentes que ela proporciona. Me interessa ganhar cachês melhores também.

É necessário um pouco de depressão para a composição?
Pra mim, não existe uma fórmula pra compor nem um estado de espírito ideal. Muito menos a necessidade de um pouco de depressão.

Como aconteceram as participações?
As participações são especialíssimas, são de amigos muito talentosos e grandes figuras, que toparam gravar com o maior empenho. A primeira faixa do disco é uma colagem de baterias de uma gravação do Hamilton (conhecido por Camarão). É um pseudo free-jazz. Minha pequena e desafinada homenagem aos mestres. Não é preciso nem dizer que foi muito legal ter a Marielle Loyola gravando aqui - com a filha dela só olhando, atenta -, ela canta pra caramba e é uma figuraça. Foi ducaralho ouvir o Maccoy (Maximiliano Maccoy) quebrando tudo na guitarra às 3 da manhã e falando: “cara, volta lá! achei uma linha bacana aqui...”. Ele fez vários takes, tudo de improviso, foi difícil escolher. Sobrou um material bem interessante ainda. O Rubens K me mostrou a música “Toda Paz”, que um dia ele gravou aqui em casa bem despretensioso, voz e violão – ele tem várias músicas muito boas - e eu resolvi gravar. Quando estava tudo pronto, falei com ele e ele veio gravar a voz. Ficou ducaralho. Aliás, todas as participações ficaram excelentes. O Rodrigo eu não conheço há tanto tempo como os outros, e a história dessa participação é a seguinte: eu estava trabalhando em “Certas Manhãs” e estava gravando a voz. Fiz vários takes. Sempre fui muito exigente comigo na hora de gravar os vocais, porque não é fácil pra mim, e me bati pra caramba pra acertar. Gravei, mas não tava soando legal. Daí, não lembro direito como foi, acho que encontrei o Rodrigo num bar e o convidei pra gravar a voz, já conhecia o estilo dele cantar, imaginei que era o cara certo. Então passei pra ele um cd com a minha voz na música pra ele ouvir e tirar as melodias e tal. Depois, na hora de gravar foi muito fácil, ele gravou muito rápido (como todos que participaram do disco), arranjou os próprios backings e ficou perfeito. É muito legal quando fica do jeito que se imagina.

Anoitecer, meia noite, separados, adeus, mentiras, memórias, manhã, orvalhos, insomnica... temas das músicas...
Esse disco inicialmente era pra ser um lance mais conceitual, mais curto inclusive, uma pequena “suíte”, um lance meio progressivo. Mas daí a idéia inicial foi se desfazendo porque achei que ia ficar meio esquisito, ruim, e abandonei a idéia. Mas ainda assim busquei unidade, seqüência, porque já é um saladão de estilos musicais. Tive ainda outros nomes pro disco e pro meu trabalho caseiro, que antes se chamava Iris e depois virou uma banda e a banda terminou e eu resolvi mudar de nome. O disco é, pra mim, um pequeno filme, com uma seqüência de horas e história. A inspiração? Os discos, livros, filmes e a vida que vejo e vivo por aí.



Como é o teu processo criativo, como você cria?
Geralmente começo no violão, com uma seqüência de acordes, com um acorde novo que descubro ou um riff. Como já disse, não há um padrão. Às vezes faço no computador, uma linha de baixo... posso ter uma letra na mão e então vou atrás da música.

Qual é a sua história na música?
Comecei a tocar violão com uns 7 ou 8 anos. Comecei a aprender com meu pai e depois com uma professora na escola onde eu estudava. Mas foi tudo muito simples, o básico. Em bar, minha primeira apresentação foi aos 13 anos no extinto Banana Blue, num festival. A banda se chamava Venus in Furs (título de uma música do Velvet Underground). Esse foi o início do Tods, que foi minha grande escola na música; toquei no oaeoz, na Iris e toco com o ESS, na ativa desde 1997. Os instrumentos que tenho um certo domínio são o violão e a guitarra. Mas toco um pouco de teclado, trompete, bateria, baixo...

Acho que um bom músico é metade técnica, metade amor pela coisa. Você vê isso no seu trabalho?
Sou muito mais instinto, momento e improviso do que técnica. Aliás, de técnica tenho muito a aprender. Tenho uma certa facilidade pra arranjar.

Para escrever é necessário viver?
De preferência. Acho que é necessário exercitar muito, como qualquer tipo de criação. Muita coisa acaba não prestando no final; perde-se um tempão criando, escrevendo, e no fim acaba se refazendo tudo de novo.

O que chama a atenção do teu olhar quando você está na rua, no bar...
Caramba, difícil dizer... sou muito detalhista. Gosto de às vezes parar e observar as coisas ao meu redor como se fosse uma fotografia. Uma pausa no tempo. Sou muito olfativo também, presto muita atenção em cheiros. Um perfume de mulher, cheiro de grama molhada, de comida, etc....

O que você lê?
Leio de tudo, revistas, adoro gibis, Kerouac, sou fã de Bukowski, Asterix, P.J. Gutiérrez, etc. Tenho lido muito textos de amigos e conhecidos em blogs também. Tem uma rapaziada escrevendo pra caramba, Rubens K, Mário Bortolotto, Marcelo Mirisola, Jorge Cardoso, textos de primeiríssima qualidade.

Você fala sobre o amor em suas diversas formas. É a vida como ela é?
É.

Quantas cópias têm o cd? Como as pessoas podem comprar?
Fiz uma primeira leva de 100 cds. Podem comprar entrando em contato comigo pelo e-mail eegor_ribeiro@yahoo.com.br ou 41 9621 1942. Custa 10 reais.