Neste período, no pequeno vale de Gardena, no Norte da Itália, organiza-se uma das tradições mais simpáticas do ano. A Helau, como é conhecida, surgiu como uma forma de amenizar a ansiedade dos rapazes recrutados para o serviço militar. Como o alistamento não é mais obrigatório, a tradição perdeu seu antigo propósito. Mas as atividades mantiveram-se e hoje são mais uma oportunidade para os jovens festejarem por dias seguidos, regados a muito vinho e trajados com fantasias personalizadas para a ocasião, como relata a nossa correspondente italiana Monika Rabanser.

tradução melissa medroni

Na Itália, o serviço militar deixou de ser obrigatório há poucos anos. Antes disso, os jovens precisavam ir ao médico, que avaliava quem tinha boa saúde e condições físicas adequadas para enfrentar o duro treinamento.

Depois do exame, que nós chamamos de Musterung, os jovens voltavam para casa triunfantes, caso aprovados, pois isso significava que eles eram fortes, que estavam em forma e cheios de saúde. Mas, por outro lado, também significava meses de privações, perigo e, no pior dos casos, se houvesse guerra, risco de partir e nunca mais voltar.

Para afastar esses pensamentos ruins, nasceu a tradição Helau, uma festa que envolve todo o vale de Gardena (são três cidades: Ortisei, S. Cristina e Selva Gardena), mas que diz respeito principalmente aos rapazes que completam 18 anos.

O figurino
Geralmente, no início de maio, todos já tinham feito a Musterung e sabiam se deviam ou não prestar o serviço militar. A festa acontece até hoje no mesmo período, no dia primeiro de maio em uma cidade do vale e nas demais em cada domingo seguinte; nunca ao mesmo tempo. Para a festa, os rapazes se vestem todos iguais, com calça jeans, camisa branca de mangas compridas, avental azul e chapéu preto.

Todos os aventais são pintados a mão e geralmente trazem o nome ou as iniciais do rapaz. O mais particular do figurino é o chapéu, enfeitado com plumas de pavão, flores de metal de cores vivas e com tiras de tecido, adorno que nós chamamos de pintes, que vão até os pés. Cada chapéu tem no mínimo três plumas e cem pintes, então você pode imaginar o peso que esses rapazes carregam na cabeça. Para completar, as camisas são assinadas, principalmente pelas garotas – amigas, namoradas ou qualquer outra interessada.

Antigamente, o figurino dos jovens escolhidos era diferente: o chapéu possuía, ao invés dos pintes, cartas de baralho. Hoje não se usam mais estes chapéus com cartas.

A balbúrdia
A festa começa de manhã, com um café normal, quase sempre preparado pelas garotas. Depois todos vão à missa e só então têm início as festividades propriamente ditas. Os jovens espalham-se pelas estradas, dirigindo-se da sua cidade de origem à cidade vizinha, até chegarem ao fim do vale.

Ali eles param os carros, comem, bebem e batem as plumas dos seus chapéus nos carros e nas pessoas que passam pelo caminho, gritando Helau aos que querem e muito mais aos que não querem ouvir a gritaria.

Quando chega a noite estão todos cansados, mas faz parte da tradição que os rapazes não podem ir para suas próprias casas. Dormem na casa de amigos, nas ruas, nas praças, nas cabines telefônicas, onde acham um lugar. No dia seguinte, tudo recomeça, naturalmente com um bom copo de vinho no café da manhã. Se alguém não agüenta e volta para casa não pode mais entrar na maratona.

A tradição
Os rapazes que resistiam por mais tempo têm a honra de ganhar o l ram, um bastão de madeira esculpido, entregue por um veterano. Alguns resistem até uma semana na maratona. Imagine o estado dos rapazes depois uma semana andando, gritando, bebendo e dormindo em qualquer canto.

O que mudou nesta tradição é que hoje, no primeiro dia de festa, os garotos são acompanhados pelas garotas, que levam uma daquelas tiras de tecido em volta da cabeça e ajudam a atrapalhar a tranqüilidade pública.

Claro que hoje a tradição não tem mais nada a ver com afastar dos rapazes os maus pensamentos ocasionados pelo recrutamento ao serviço militar. Hoje a festa serve como um rito de passagem da adolescência para a vida adulta. Se você estiver no Norte da Itália nesta época do ano, aconselho que não perca este espetáculo único, que tem uma atmosfera ímpar, difícil de descrever.

Alla prossima
Monika

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