13/02: Na fronteira com SP, o outro lado da história
Category: General
Posted by: Melissa Medroni
fotos: theo marques
Nos bastidores do progresso proporcionado pelas lavouras de café a partir da década de 40, o Norte do Paraná viveu um dos períodos de maior exploração do trabalho no campo.
Três cidades que visitamos na semana passada, próximas à divisa com o Estado de São Paulo, são sobreviventes desse período: Porecatu, Cafeara e Santo Inácio. Hoje todas gozam da pacata vida do interior (nenhuma têm mais de 20 mil habitantes), mas as três passaram por um período de prosperidade econômica e lutas sangrentas pela posse de terras.

porecatu
Enquanto surgiam os grandes centros urbanos, como Londrina e Maringá, e a renda interna do Paraná possibilitava ao governador Bento Munhoz da Rocha Neto modernizar a capital com obras como o Centro Cívico e o Teatro Guaíra, as áreas rurais sofriam com a atuação de aproveitadores que modificavam leis, mapas e documentos.
Com o auxílio da polícia, políticos e pessoas influentes respaldadas por escrituras forjadas despejavam colonos e lavradores. Ao mesmo tempo, surgiam grupos de grileiros, assim conhecidos, reza a lenda, por colocarem grilos nos arquivos para destruir as verdadeiras escrituras.
Revolta de Porecatu
Foi neste contexto que, em 1950, explodiu um movimento do qual há poucas referências nos livros de história do Paraná: a Revolta de Porecatu, importante capítulo na luta pela reforma agrária no Brasil, marcado por choques armados e cidades ocupadas.
O conflito começou após a eleição do governador Bento Munhoz. Em sua campanha, Munhoz declarara, num comício na cidade de Porecatu, que os desbravadores tinham o direito de ficar nas terras que colonizaram.

Ao receberem a notícia da vitória do governador, quatro lavradores decidiram voltar à fazenda da qual tinham sido expulsos, colocaram os empregados para correr e atiraram em direção a um avião que fazia reconhecimento no local.
A agitação se espalhou pela cidade e pelos noticiários do Brasil e do mundo, que comparavam a situação à Coréia comunista e à Coluna Prestes. O resultado do conflito foi o fortalecimento do movimento das Ligas Camponesas, que impulsionou a luta pela reforma agrária e culminou com a criação, décadas mais tarde, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Tempos modernos
Hoje não se encontram nem vestígios desse episódio em Porecatu. Atualmente a cidade concentra-se em fazer o tempo passar nas entre safras de cana, quando boa parte da população fica desempregada.
Nos finais de tarde, o canteiro de uma das principais avenidas fica congestionado de tanta gente caminhando dentro da estreita faixa amarela pintada no asfalto para esse fim. No Museu Municipal, uma saudosa exposição relembra a primeira usina de cana que se instalou na cidade.

Árvores redondas
Já na pacata Cafeara, a 40 quilômetros dali, uma professora tenta reunir para o recente museu objetos e imagens da época em que o café era tão importante para a economia local que deu nome à cidade, somado à inicial da palavra arara, outra presença marcante na história local.
Hoje a única presença marcante na cidade de 2,8 mil habitantes – divididos entre o trabalho no cultivo da cana ou em cargos administrativos na prefeitura - são as árvores geometricamente podadas em forma de queijo, o cartão postal do município.

Redução Jesuítica
Ainda mais próxima ao rio Paranapanema, a cidade de Santo Inácio também começa a resgatar partes da sua história e prevê para o fim deste semestre a conclusão do museu.
O acervo contará com peças indígenas, objetos pessoais de colonizadores e material sobre a Redução Jesuítica Santo Inácio Mini, que existiu no século 17 no local onde hoje se encontra a cidade e foi destruída pelos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manoel Preto. Mas essa já é outra história.

Fontes consultadas:
Portal Vermelho
Artigo de Antônio Câmara, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia
Tese a “Revolução do Brasil”, de Noel Nascimento
Nos bastidores do progresso proporcionado pelas lavouras de café a partir da década de 40, o Norte do Paraná viveu um dos períodos de maior exploração do trabalho no campo.
Três cidades que visitamos na semana passada, próximas à divisa com o Estado de São Paulo, são sobreviventes desse período: Porecatu, Cafeara e Santo Inácio. Hoje todas gozam da pacata vida do interior (nenhuma têm mais de 20 mil habitantes), mas as três passaram por um período de prosperidade econômica e lutas sangrentas pela posse de terras.

porecatu
Enquanto surgiam os grandes centros urbanos, como Londrina e Maringá, e a renda interna do Paraná possibilitava ao governador Bento Munhoz da Rocha Neto modernizar a capital com obras como o Centro Cívico e o Teatro Guaíra, as áreas rurais sofriam com a atuação de aproveitadores que modificavam leis, mapas e documentos.
Com o auxílio da polícia, políticos e pessoas influentes respaldadas por escrituras forjadas despejavam colonos e lavradores. Ao mesmo tempo, surgiam grupos de grileiros, assim conhecidos, reza a lenda, por colocarem grilos nos arquivos para destruir as verdadeiras escrituras.
Revolta de Porecatu
Foi neste contexto que, em 1950, explodiu um movimento do qual há poucas referências nos livros de história do Paraná: a Revolta de Porecatu, importante capítulo na luta pela reforma agrária no Brasil, marcado por choques armados e cidades ocupadas.
O conflito começou após a eleição do governador Bento Munhoz. Em sua campanha, Munhoz declarara, num comício na cidade de Porecatu, que os desbravadores tinham o direito de ficar nas terras que colonizaram.

a paisagem pacata atual não denota o passado turbulento da cidade
Ao receberem a notícia da vitória do governador, quatro lavradores decidiram voltar à fazenda da qual tinham sido expulsos, colocaram os empregados para correr e atiraram em direção a um avião que fazia reconhecimento no local.
A agitação se espalhou pela cidade e pelos noticiários do Brasil e do mundo, que comparavam a situação à Coréia comunista e à Coluna Prestes. O resultado do conflito foi o fortalecimento do movimento das Ligas Camponesas, que impulsionou a luta pela reforma agrária e culminou com a criação, décadas mais tarde, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Tempos modernos
Hoje não se encontram nem vestígios desse episódio em Porecatu. Atualmente a cidade concentra-se em fazer o tempo passar nas entre safras de cana, quando boa parte da população fica desempregada.
Nos finais de tarde, o canteiro de uma das principais avenidas fica congestionado de tanta gente caminhando dentro da estreita faixa amarela pintada no asfalto para esse fim. No Museu Municipal, uma saudosa exposição relembra a primeira usina de cana que se instalou na cidade.

Árvores redondas
Já na pacata Cafeara, a 40 quilômetros dali, uma professora tenta reunir para o recente museu objetos e imagens da época em que o café era tão importante para a economia local que deu nome à cidade, somado à inicial da palavra arara, outra presença marcante na história local.
Hoje a única presença marcante na cidade de 2,8 mil habitantes – divididos entre o trabalho no cultivo da cana ou em cargos administrativos na prefeitura - são as árvores geometricamente podadas em forma de queijo, o cartão postal do município.

os Ficus em forma de queijo
Redução Jesuítica
Ainda mais próxima ao rio Paranapanema, a cidade de Santo Inácio também começa a resgatar partes da sua história e prevê para o fim deste semestre a conclusão do museu.
O acervo contará com peças indígenas, objetos pessoais de colonizadores e material sobre a Redução Jesuítica Santo Inácio Mini, que existiu no século 17 no local onde hoje se encontra a cidade e foi destruída pelos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manoel Preto. Mas essa já é outra história.

santo inácio
Fontes consultadas:
Portal Vermelho
Artigo de Antônio Câmara, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia
Tese a “Revolução do Brasil”, de Noel Nascimento

Jonas wrote: