Marcello Dallegrave


Lucerna

No trem que pegamos em Florença, na Itália, a caminho da Suíça, pergunto para a atendente se existe risco de perder a conexão que devemos fazer em uma estação próxima ao maciço de St. Gothard, para chegar até o nosso destino, a cidade de Lucerna. A funcionária avisa que não há necessidade de se preocupar com atrasos, porque os suíços são - ela faz uma pausa e diz - "precisos". Em pouco tempo de viagem, descubro que a precisão suíça é, de fato, uma característica tão legitima quanto os canivetes Victorinox, os relógios, os queijos e os vinhos vendidos no país.


Até os passaros sao alinhados em Lucerna

Na Suíça, o dito popular dos antigos navegadores, tornado célebre por Fernando Pessoa, não vale, porque na terra dos Alpes viver é tão preciso quando navegar. Sejam nos vales verdes que vemos da janela do trem ou nas cidades limpas formadas por casas que parecem de boneca, temos a sensação de estar passeando sobre uma maquete, onde tudo tem um encaixe perfeito. Nem as folhas que caem das árvores no outono ficam fora do lugar. Literalmente. Em um passeio em volta do lago na cidade de Zurique, vimos um homem trabalhando com uma espécie de aspirador que, ao invés de sugar, assoprava as folhas caídas no caminho dos pedestres de volta para a grama.


Zurique

No fim da viagem, no trem (este sim gerido por uma autêntica companhia italiana) que me trouxe de volta para Florença, com duas horas de atraso, comentei com uma professora que vive no interior da Suíça a minha impressão sobre o seu país. Ela observou que não era bem assim, que as coisas só pareciam ser perfeitas. Então lhe perguntei quais eram os principais problemas e ela ficou pensativa. Pediu ajuda para o estudante, também suíço, sentado ao seu lado, e ele também não soube responder. O que fez a professora concluir, em tom quase confessional: "é, nos somos um país rico".



Não precisava nem dizer. No fundo de uma igreja em Lucerna, na missa matinal de domingo, onde fomos nos abrigar da chuva, observamos a população local, ou pelo menos parte dela, enquanto um coral entoava músicas sacras acompanhado de um majestoso órgão. Todas as pessoas ali estavam bem vestidas, eram coradas, sadias e gentis. Mesmo tendo um território do tamanho do estado de Sergipe, constituído em 70% por montanhas, a Suíça é um paraíso de fartura e tranqüilidade. O funcionário do nosso albergue em Zurique contou que as crianças são obrigadas a freqüentar a escola, publica, é claro. E que nem uma bicicleta sai da loja sem um seguro, mesmo que ninguém vá roubá-la porque todos têm a sua Mercedes ou coisa do gênero. Nas calçadas, em frente às faixas de pedestres, os motoristas diminuem a velocidade e param imediatamente assim que alguém ameaça atravessar a rua.


Lucerna

Situações como essas me levaram a concluir que, pensando bem, nem uma maquete é tão precisa quanto uma cidade suíça. Infelizmente, assim como acontece com as maquetes, na Suíça não há muito o que fazer além de olhar. Para quem não tem uma daquelas famosas contas, o dinheiro mal dá para comer: um sanduíche custa entre 6 e 8 francos, mesmo preço de um pacote de batatas ou de uma lingüiça assada (iguaria muito saborosa, por sinal). A língua, pelo menos nas cidades que visitamos, é o alemão, que para mim é tão compreensível quanto os filmes do David Lynch (também se fala, de acordo com a região, o francês, o italiano e o dialeto romanche). Às seis da tarde o sol já se pôs e as pessoas estão jantando, para logo ir dormir.


Zurique

De volta a barulhenta Itália, percebi que de fato estava enganada com relação a perfeição dos "pobres" suíços, que convivem com o único problema social que jamais enfrentamos no Brasil: o tédio.


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