fotos de Waldo Rafael

A empresária Tania Barcellos


Osval Dias de Siqueira Filho, conhecido como Tiomkim, gosta de cinema experimental. Compara o prazer de filmar com o mesmo sentimento que tem ao cozinhar e em ambas as artes ele prefere que as coisas aconteçam naturalmente, sem premeditações ou roteiros. Claro que ele já dirigiu ficção ou documentários de maneira tradicional, mas prefere juntar os ingredientes – ou mesmo os temperos – dessa forma mais livre, solta. Tiomkim está finalizando o curta Nossos Gestos, Nossas Almas, filmado de maneira extremamente experimental, e que fala de um tema intrigante: a solidão feminina.



Quatro mulheres elegantes em um bar construído em 1890. O tempo é a década de 20 ou 30. Atmosfera retrô, trilha sonora com grande influência dos musicais dos anos 50, silêncio, performance e dança. Assim ele criou o mais experimental e musical de todos os seus trabalhos. “Acho que a solidão é uma coisa do ser humano. Hoje a mulher é mais participativa, mas a solidão é uma coisa interior, independente disso”, disse Tiomkim em entrevista exclusiva ao Plano B. “E a escolha de filmar em um bar foi porque apesar de ser um local de encontros, é sinônimo de solidão, para mim. No bar as pessoas estão sempre buscando algo, esperando alguma coisa. O bar pode estar cheio de gente, mas é uma coisa solitária”.


A atriz Alexandra Gil e o maquiador do Teatro Guaira, Mozart.


Para traduzir esse sentimento em imagens, o diretor convidou três empresárias que nunca trabalharam como atrizes – Lorena Schwartz, Tania Barcellos e Audrey Grubba – e uma atriz, a Alexandra Gil, para que ela criasse um ballet performático e envolvente. “Queria fazer alguma coisa sobre mulheres, aí precisava que algumas mulheres estivessem disponíveis e precisava de um espaço. Depois que vi o espaço do bar A Casa do Barão, resolvi levar as mulheres lá e colocá-las numa situação de espera, para falar sobre a solidão. O espaço estava totalmente vazio, coloquei as três mulheres e disse: vocês estão aqui e vão ficar esperando alguém que não vem”.

Em parceria com Túlio Viaro, Tiomkim passeou por esse universo que inclui espera, dúvida, ansiedade e, provavelmente, conformidade. O curta está quase todo formatado e Guto Gevaerd vai criar a trilha sonora. “O Guto vai pegar alguma coisa do Cole Porter, Gershwin, Jerome Kern, entre outros, e vai trabalhar o antigo e o moderno. Ele vai criar uma trilha pinçada nessas referências”. Outra influência, que também vai aparecer na trilha, é o escritor Scott Fitzgerald. “Ele era o autor que melhor conseguia mostrar a década de 20, aquelas pessoas elegantes, e eu comecei a pensar muito na música Suave é a Noite, que é um romance do Fitzgerald e tema musical de um filme famoso inspirado na obra dele. Na trilha o Guto deve pinçar um pouco de Suave é a Noite também”.


A empresária Audrey Grubba.


Filmado em apenas uma manhã, o curta dura cinco minutos e a estréia está prevista para o mês de março. Enquanto finaliza a produção, Tiomkim – produtor, diretor e coordenador do departamento de Áudio Visual do Museu da Imagem e do Som – desenvolve outros projetos, como o filme Mandarim, também em parceria com Túlio Viaro. “Tenho também um outro roteiro, um documentário sobre uma professora, pianista, desenhista e escritora que foi professora durante 50 anos numa cidadezinha no interior de Santa Catarina e morreu anonimamente aos 90 anos. Vai se chamar Quando o Coração não Envelhece, a história de Charlotte Eitz, um projeto em parceria com um amigo meu, o Emerson May”.

Depois de alguns curtas mais radicais como Cenas de um Sonho Selvagem, de 1990, Tenderly, 1992, Amanhã Seremos Felizes, de 1995, e do famoso Rainha do Papel – documentário sobre Efigênia Rolim, é só aguardar a estréia do curta non sense de Tiomkim.


A advogada Lorena Schwartz