ESPECIAL ALFRED HITCHCOCK


As limitações técnicas eram o que menos importava a Alfred Hitchcock quando ele pensou em filmar “Os Pássaros”. Fascinado pela idéia de fazer suspense com aves comuns, o diretor permitiu-se pela primeira vez fugir do roteiro e improvisar. O resultado é aterrorizante, como analisa a seguir o jornalista Rodrigo Juste Duarte.

OS PÁSSAROS



Foto Marcelo Dallegrave


“Hitchcock provoca terror em seus espectadores fazendo uso de um elemento real e corriqueiro de nosso dia-a-dia: as aves”





Não são os ditos filmes de terror os que causam medo. Eles podem causar diversas sensações desagradáveis, mas medo é um sentimento causado por (bons) filmes de suspense. E "Os Pássaros" (The Birds/1963) é um dos melhores exemplos que temos na história do cinema.

Neste filme, Hitchcock provoca terror em seus espectadores fazendo uso de um elemento real e corriqueiro de nosso dia-a-dia: aves que comumente convivem em harmonia com os humanos em regiões urbanas. Porém, no filme elas manifestam um comportamento agressivo e inesperado. Esse fator extraordinário gera uma tensão que se torna crescente com o passar do filme. Os ataques são surpreendentes.

Desde o primeiro, de uma solitária gaivota sobre a cabeça da protagonista, até os finais, de verdadeiras hordas animais emplumados em ataques massivos e destrutivos contra pessoas apavoradas. E o que causa ainda mais estranhamento é que não há explicação para o repentino comportamento dos pássaros. Essa omissão de informação é um grande trunfo do filme para sugerir atmosfera de suspense.

A linguagem cinematográfica também tem muito destaque. Os enquadramentos, planos e contraplanos não estão lá de graça. O som também faz diferença, ou melhor, a ausência dele. Em muitas passagens o silêncio é elemento de tensão. Há trechos sem trilha nem diálogos. De repente um bater de asas de um pombo causa susto não só por quebrar o silêncio, mas por revelar a proximidade do elemento de horror.

Por fim, "Os Pássaros" justifica a afirmação que o terror mais intenso não é provocado por fenômenos sobrenaturais, mas sim por elementos bastante próximos e reais de nosso cotidiano.

Rodrigo Juste Duarte, o Digão, é jornalista do portal Bonde, repórter fotográfico, dj e autor do blog Pelo Orifício de Rebeca. Sempre presente na cena cultural paranaense, Digão foi um dos organizadores do PUTZ - Festival Universitário de Cinema e Vídeo de Curitiba, jurado do 1º Embate Air Guitar de Curitiba e colaborador do livro ''A (des) construção da música da cultura paranaense'', de Manuel de Souza Neto.

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