Veneza teve seus dias de glória na época em que era conhecida como La Serenissima Reppublica. No Século XIV viveu seu auge, quando quase todo o Norte da Itália fazia parte de seus domínios e a sua produção artística era riquíssima. Hoje a cidade se restringe a uma área de 412 km²quadrados - um pouco menor do que Curitiba - mas está poderosa como nunca. Especialmente quando o assunto são filmes. A edição deste ano do Festival de Cinema de Veneza, que vai de 30 de agosto a 9 de setembro, está de arrasar.



A 63ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica apresentará 61 filmes entre as mostras Oficial, Horizontes, fora de competição e eventos especiais. Pela primeira vez desde 1945, todos os filmes que competem pelo Leão de Ouro terão no evento sua premiére mundial. É um belo cartão de visitas, muito melhor do que o apresentado pelo seu congênere em glamour, o Festival de Cannes.


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Mas o que interessa não é quando nem onde o filme estréia, e sim se é bom ou não. Como os filmes ainda são uma incógnita para o público, resta falar sobre as expectativas. Que são as melhores possíveis com essa seleção de Veneza.


Fotos: Rosana Félix


Para começo de conversa, a mostra oficial abre com Dália Negra, de Brian de Palma. No elenco, Scarlett Johansson, Hilary Swank e Fiona Shaw. Também tem Alfonso Cuarón ( de “E sua mãe também”), com Children of Men, estrelando Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine. Darren Aronofsky (que dirigiu o excepcional "Réquiem para um Sonho") aparece com The Fountain, com o não menos excepcional Hugh Jackman, além de Rachel Weisz. O diretor Stephen Frears (“Alta Fidelidade”) apresenta The Queen. Outras produções de destaque são do italiano Gianni Amelio, com La stella che non c’è, a animação Paprika, de Kon Satoshi e Bobby, do ator semi-desconhecido Emilio Estevez, que conseguiu reunir em um só filme Sharon Stone, Antony Hopkins, Demi Moore, Laurence Fishburne, Elijah Wood, Heather Graham, Helen Hunt, William H. Macy, Martin Sheen e outros.



O júri, presidido pela atriz Catherine Deneuve, conta com Cameron Crowe, o diretor espanhol Juan Josè Bigas Luna, o produtor português Paulo Branco, a atriz russa Chulpan Khamatova, o diretor Park Chan-wook, da Coréia do Sul, e o italiano Michele Placido, ator e diretor.

Novo Lynch
Fora da competição se destacam As Torres Gêmeas, de Oliver Stone e, nada mais nada menos do que a nova produção do cineasta David Lynch, Inland Empire. Sabe-se muito pouco sobre o filme, apenas que é um mistério sobre uma mulher em apuros e que tem quase três horas de duração. Na ocasião Lynch receberá um prêmio pelo conjunto da obra.



Também receberá homenagem o diretor brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, um dos pilares do Cinema Novo, com uma retrospectiva completa de seus filmes, restaurados em formato digital. Entre os destaques, Macunaíma e Garrincha - Alegria do Povo.

As celebrações não param por aí. Em evento paralelo às mostras, Bernardo Bertolucci será lembrado com a reapresentação de O Último Imperador, que completa 20 anos. Outra data impressionante que será festejada é o centenário do nascimento de Roberto Rossellini, Luchino Visconti e Mario Soldati. Sim, os três nasceram no mesmo ano - 1906. O terceiro, apesar de não muito conhecido por aqui, foi um dos maiores documentaristas italianos, além de importante roteirista e diretor (“A mulher do rio”). Em evento paralelo ao festival, serão apresentadas versões restauradas de Roma Cidade Aberta (Rossellini) e Obsessão (Visconti).



Se Veneza mantém o apelido de Sereníssima - título concedido a príncipes e soberanos por muitos séculos - é porque consegue manter sua majestade, seu poder e glória. Mesmo que esteja afundando ou viva abarrotada de turistas, esse é o lugar, especialmente para o cinema em 2006.