Abert Nane começou a fazer as fotos que deram origem ao ensaio Pombos, na Rua XV de Novembro, em Curitiba, local de vasta miscigenação urbana. Só que ele achava (e isso o incomodava) que tudo o que se fazia no estilo Fotografia de Rua hoje era selecionar imagens e clicar. Isso porque depois de Henri Cartier-Bresson e o seu Momento Decisivo, a impressão era que nada mais havia para ser descoberto na fotografia de rua. Então selecionou e clicou até libertar a câmera do olho e experimentar fotografar sem olhar, o que deu a ele maior mobilidade.

Daí até chegar ao gesto que fez com que a câmera espantasse os pombos foi um processo natural. “Amarro a câmera na mão, pra ela não escapar porque ela geralmente escapa, e faço um gesto com o braço. Faço os pombos voarem e nesse tempo eu fotografo. O único modo para fazer estas fotos é fazendo este gesto; quer dizer, eu poderia usar uma teleobjetiva e fotografar o pombo como qualquer fotógrafo de natureza faz, mas chegar perto, perto mesmo, só dá para chegar fazendo este gesto”, diz Nane.



Não que ele ache que tirar a câmera do olho e arremessá-la aos pombos (sem machucá-los, que fique claro) abra espaço para uma coisa extremamente nova – “fiquei satisfeito com o resultado, mas não vejo isso como se fosse uma nova oportunidade, não abre um leque de possibilidades para as pessoas” –, mas em muitas imagens o tempo é o da asa do pombo. Nane explica: “o Tadeu Chiarelli disse que esse trabalho fala sobre o tempo. O meu tempo é o tempo do pombo. O tempo da imagem, o tempo do pombo e o tempo da cidade, que geralmente distorce. É um trabalho sem controle do que vai ser”. O ensaio já foi exposto, mas Nane ainda fotografa os pombos despretensiosamente e registra os fatos, em vídeo, junto com o também fotógrafo Rafael Bertelli, dessa performance fotográfica.