02/02: Pornografias por Xico Sá
Category: Literatura
Posted by: Melissa Crocetti

Ler Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias (Editora do Bispo) é uma delícia. A começar pelo projeto gráfico, que faz do livro uma mini-bíblia cor-de-rosa, assinado por Pinky Wainer. E continua na prosa cantada, mas nada regional, de Xico Sá e suas pornografias. Xico faz uma ode às mulheres, cheia de ensinamentos aos homens e às mulheres, sobre coisas como o milho e a manga. Xico mescla suas experiência com as suas “imagindecências”, como conta nessa entrevista exclusiva ao Plano B.
São 389 páginas escritas por esse nordestino, nascido em Cariri em 1963 e criado em Recife, que vão deixar até os mais pervertidos, ruborizados. E não é pornografia gratuita. É um manual para não-moralistas. Desde Modos de Macho e Modinhas de Fêmea, o jornalista e escritor, se arrisca com sucesso a desvendar as relações homem X mulher. Nesse caso, em situações corriqueiras que misturam a linguagem do catecismo à dos manuais eróticos. O livro está sendo vendido pelo site da Editora do Bispo, www.editoradobispo.com.br. Você pode também encontrar informações sobre o autor no blog http://carapuceiro.zip.net. Segue a entrevista.
Você disse, em outra entrevista que fiz com você em 2003, que a intimidade era a grande pornografia. Continua pensando assim?
É a maior e mais bela pornografia. Sempre será. O grande gozo só é possível com a grande intimidade.
Como nasceu a idéia desse livro?
Tive a idéia ao reler um velho manual árabe de sexo, O Jardim Perfumado, sabedoria muito antiga. Aí deu vontade de fazer algo parecido para os dias de hoje e com os costumes de hoje. Tem um pouco de inspiração também nos catecismos do Carlos Zéfiro, com os quais me iniciei na arte da masturbação.
Existe algum outro simbolismo, além da sua declaração: 'uma resposta ao catecismo do papa Bento XVI, que condena a pornografia e a luxúria'?
Toda essa cruzada moralista da igreja também serviu de incentivo para fazer o livro. O formato tem como modelo os catecismos católicos dos anos 20 do século passado. A Pinky Wainer, autora do projeto, fez uma puta pesquisa para desenvolvê-lo. É uma bíblia de sacanagem para maiores de 21 anos.
Você é religioso, Xico?
Fui até coroinha de igreja no Nordeste, mas graças a Deus me livrei do ataque de algum padre pedófilo. Hoje sou descrente, pois acho que Deus prefere os ateus.
O Catecismo... traz referências a escritores contemporâneos, como Joca Terron ou Ronaldo Bressane, que você chama de bispo auxiliar. Você teve essa preocupação de trazer esses nomes para o seu trabalho ou isso é algo natural?
Além de grandes escritores, são amigos com os quais convivo. Trocamos muitas idéias a respeito dos livros uns dos outros. Cada cerveja é uma história. Terron e Bressane são importantíssimos na minha transição do jornalismo para um texto mais literário.
Até que ponto as conversas com seus amigos nos bares são a sua inspiração?
Quando os amigos estão bêbados, roubou-lhes as melhores idéias para escrever. Brincadeira. Mas sempre ameaço e, às vezes, os assuntos viram mesmo boas crônicas. Mas tenho o cuidado de citá-los, homenageá-los.
Qual o papel dos blogs para a disseminação do trabalho desses escritores?
Tenho me aproximado cada vez mais, até por conta da amizade com os escritores da chamada geração 90, de todo esse movimento da nova safra. Além do Terron e do Bressane, um nome importantíssimo que serviu de ponte para a minha aproximação foi o Marcelino Freire, que, junto com o Nelson Oliveira, é o grande agitador. O blog tem sido o principal veículo desse povo todo. Além de divulgar a produção e os eventos, tem servido também como incubadora de novos livros. Os escritores vão guardando e testando ali o que depois é editado na forma tradicional do livro.
Você disse que o livro é um tratado de devoção às mulheres. Qual tem sido a reação das mulheres ao livro?
Mais de 80% dos compradores dos meus livros são mulheres, exatamente por conta dessa sincera devoção. Me ajoelho aos seus pés.
E qual a reação dos homens?
Os homens ficam mais chocados do que as mulheres, pois trato de temas ainda tabus pra eles, como o fio-terra, por exemplo.
O que é pornográfico para você?
É a intimidade radicalizada.
Sexo melhora com a idade?
Cada fase tem uma linguagem diferente. Mas nós, homens, realmente não sabemos nem dizer bom dia a uma mulher até os 20 e tantos anos. Aos 30 estamos bem melhor e aos 40 atingimos a melhor fase.
Acho que os títulos dos capítulos são uma literatura à parte. Isso é fruto de um trabalho solitário?
Tão solitário quanto a masturbação. Haja noites e madrugadas, com muito vinho, para tecê-los.
Você tem uma musa inspiradora?
No caso do Catecismo são várias musas. Muitas situações ocorridas de verdade.
A Pinky Wainer, autora do projeto gráfico do livro, é sua sócia na Editora do Bispo. Qual é a proposta da editora?
Queremos fazer uma editora menos careta possível, que publique preferencialmente textos que seriam rejeitados nas grandes editoras. E a linha será sempre essa: sexo e religião.
O "Modos de Macho" saiu pela Editora Record. Você preferiu abrir mão de uma grande editora?
Não tive problemas com a Record de liberdade de expressão. Não houve vetos. Fiz o “Modos de Macho...” da forma que bem entendi. Mas numa editora pequena como a nossa, poderemos radicalizar nos formatos dos livros, na apresentação, como é o caso do Catecismo.
O livro é copyfree. Por que vocês resolveram publicar assim?
Achamos um absurdo que existam acumuladores de direitos alheios, exploradores do já miseráveis escritores. Além do mais, é ridículo que no mundo de hoje as idéias e os conteúdos não possam circular livremente. Incentivamos que nossos livros sejam copiados e reproduzidos livremente.
