Fotos Melissa Medroni

Tem um bairro bem no centro de Roma que os turistas (felizmente!) não conhecem. É um lugar onde no final da tarde velhinhos simpáticos sentam-se para conversar em bancos improvisados. Onde ruas labirínticas de paralelepípedo levam a becos e vielas cheios de história e onde paira no ar um aroma de bolo com frutas cristalizadas e tortas doces. Este lugar é o Ghetto, o bairro judeu.



Quem caminha por este bairro encantador nem imagina quanto sofrimento estas paredes descascadas já presenciaram. Na época do Renascimento, o Ghetto foi cercado por muros a mando do papa Paolo IV. A população sitiada só podia sair durante o dia e devia identificar-se com um pedaço de pano amarelo amarrado no corpo.

A única fonte de água situava-se fora do confinamento (hoje conhecida como Fonte das Tartarugas, por causa dos répteis de bronze acrescentados à fonte por Bernini) e por isso as condições de higiene eram péssimas. Para piorar a situação, os moradores do Ghetto eram obrigados a participar de rituais e tradições humilhantes para divertir a população cristã de Roma.



O lugar só recebeu um sopro de liberdade em 1870, quando o Estado italiano rompeu com a Igreja Católica e derrubou o governo papal. Seguindo os ideais da Revolução Francesa, os muros do Ghetto foram derrubados, mas a liberdade durou pouco. Nos anos seguintes a população judia voltou a ser sitiada, desta vez pelos nazistas. O resto desta história você já sabe.



O Ghetto hoje
Apesar da humilhante perseguição religiosa que sofreu ao longo dos séculos, a comunidade judaica de Roma, que hoje chega a 20 mil pessoas, convive em harmonia com a população católica, que atravessa a cidade para saborear os quitutes da culinária do Ghetto.

O bairro mantém a arquitetura que se adaptou à superlotação nos tempos de confinamento, que por si só já vale a visita, mas também reserva outras atrações, como a sinagoga e o Museu de Arte Ebraica. Um bom começo para uma caminhada pela região é a Ponte Cestio, que liga o agitado bairro dos restaurantes Trasteve ao Ghetto. A ponte atravessa a pequena ilha Tiberina e oferece visuais lindos do rio Tevere, tanto de dia quanto de noite.

Antes de se aventurar pelo bairro judeu, o visitante pode apreciar o imenso teatro de Marcelo, erguido em 13 a.C com uma fachada de arcos que serviu de inspiração para a construção do Coliseo. O lugar é a porta de entrada do Ghetto. Logo atrás dele, encontram-se os impressionantes restos do Pórtico d´Ottavia, o mais antigo da Roma antiga.



Desde ponto a melhor forma de continuar é se perdendo nas ruas históricas, parando para observar o movimento e para saborear as delícias das confeitarias escondidas atrás de pequenas portas. Os moradores são tão simpáticos e o clima é tão acolhedor que mal parece uma área central da caótica Roma, sempre abarrotada de turistas.